quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Trilhas e suas liçoes


ALINHAMENTO CÓSMICO

 

Assim estávamos revelando os sonhos e os medos da preparação, sentadas no restaurante do Lodge, as três ao som de um mantra. Falávamos da força da energia que nos impulsionou até ali e comentei que acredito muito na energia e sei que ela forte, sinto - as em minhas mãos. Queria fazer terapia em Reiki, mas, não encontrava ninguém em Vitória especialista na área. Os olhos de Ade brilham e ela diz, eu sou uma terapeuta Reikiana. Estou sentindo uma forte energia! Estávamos sentadas no confortável assento atapetado. Paula, eu e Ade como um triangulo. Ade pede para eu me aproximar e me estende as mãos espalmadas e eu faço o mesmo juntando as minhas mãos às dela. Ade fala para Paula, fica que essa energia está passando para você também! É um momento de pura magia e serenidade. Surpreendente e não planejado. Uma conexão ao som de um mantra e de energia das mãos e com muita ternura. Ninguém entra no ambiente que tudo se torna um templo de algo maravilhoso fluindo entre nós. Ade pede que eu deite  e passa energia para minha cabeça e coração. Paula medita e ficamos sentindo a espiritualidade preencher todo o ambiente.

 

Depois ao conversarmos sobre um símbolo para essa nova caminhada ao interior de nós, Paula que está a vencer sua limitação física com sérios problemas no joelho, revela que essa experiência acendeu sua crença adormecida. Disse que pensava em tatuar um lírio pela simbologia do lírio na parábola em que diz que não devemos viver ansiosos por coisa alguma, mas que devemos ser como os lírios que não tecem nem ceifam e ainda assim são belos. Eu lembrei que essa parábola faz parte do sermão da montanha proferido por Jesus. Fica nítido que estamos sendo conduzidas por algo maior que nós três. Sim, tudo é uma preparação para uma expedição dentro de nós mesmas a descobrir e conquistar o Everest do nosso interior!.

 

RAM

 

Nosso guia, RAM, é um homem baixinho como todo nepalês. Cuidadoso, atencioso e muito alegre. Esforça-se a nos entender com nosso limitado inglês cheio de sotaque. Divertimos-nos muito com a “delicadeza” dos gestos. Ao sorrir ou concordar com algo dá-nos pequenos tapas nas costas ou pequenos empurrões capazes de nos desequilibrar. Seus gestos bruscos tentando ser gentil nos divertem. Acho que terei muitas manchas roxas pelos braços. Adotamos o procedimento e vamos nos cumprimentando com pequenos empurrões e tapas “ carinhosos”. Estamos sempre a sorrir com ele e agradecer sua prontidão em nos servir.

 

 

 

 

 

AMANHECER EM NAMCHE BAZAR

 

 

São 06h00min e o dia amanhece limpo sem o denso nevoeiro que cobriu o lugarejo durante todo o dia e noite anterior. Abrimos a janela do quarto e vimos um espetáculo á nossa frente. As montanhas com seus picos cobertos de neve e a lua a lhes fazer companhia irradiando luz e grandeza. Meus olhos mergulharam na beleza generosa que enchia a vila alheia a nós. Aqui não precisamos de bens, de possuir nada além do que necessitamos para passar  o dia. Aqui na montanha ao sentir os raios do sol dourando e iluminando lentamente os picos como a saudar compassivamente a todos os elementos da natureza, sinto-me mais humana e mais consciente do que realmente importa. O sol nos saúda e basta simplesmente dizer, bom dia montanhas amigas. Bom dia Namche, ainda estais quieta e misteriosa. Como passou a noite? Bom dia nuvens lépidas e brancas. Bom dia vida...Podia sentir a saudação para mim..Bom dia Quésia, que bom que estais aqui !!!! E assim a cidade ia despertando sutilmente para viver mais um dia de sua história. Eu ali na janela do quarto a  agradecer a Deus pelo privilégio em estar realizando um sonho. “Tudo é possível ao que crê!”

 

SEGUINDO A TRILHA

 

Saímos cedo com o frescor dos ventos que vinham das montanhas. O dia estava luminoso e pelo caminho vislumbramos o imponente Everest, Ama Dablam e Lotse a instigar os caminhantes a parar e contemplar sua beleza. Abaixo de nós, vales imensos com florestas de pinheiros. Flores minúsculas e coloridas de um outono amarelo ocre desafiando com sua delicadeza a compor o cenário de gigantes montanhas. “Se eu tivesse um dia para te dar, este seria o dia”.

Depois de três horas e meia de descida suave, paramos em um dos muitos lodges com restaurante para comermos, o de sempre! Que importa? Estou no paraíso ouvindo a musica que toca o coração dos meus amigos e assim toca o meu também e vivendo uma história que marcará minha vida para sempre.

 

CHÁ DE FLORES E FELICIDADE

 

Depois de mais de duas horas de subida intensa, chegamos a TENG BOCHE com 3.867 mt de altitude. Cheguei com muita dor de cabeça e uma forte pressão na nuca. O desconforto era grande e mesmo dispondo de medicamentos tinha uma sensação de mal estar  muito intensa. O lugar dispõe de quartos minúsculos e uma pequena estrutura de restaurante, internet que no dia não funcionava e um grande mosteiro com movimentada visitação de turistas. O melhor do lugar é pedir um chá de flores da região com sabor e perfume de uma delicadeza ímpar. São as flores usadas também para fazer incenso. O melhor chá que havia tomado na vida. Ficamos aquecidas no restaurante enquanto esperávamos nosso jantar. A despeito da precariedade do ambiente, estávamos aquecidas e confortáveis e bem atendidas. Os turistas vão chegando aos poucos, com seus diversos estilos e fisionomias. Sem dúvida parecemos as pessoas mais felizes do lugar. Estamos sempre cantando, sorrindo e brincando com nosso guia, ainda que com dor de cabeça e um leve mal estar . Sim, felicidade é um estado de espírito que acontece em função da escolha, do reconhecimento que a vida é feita de momentos que nós fazemos de especial e seus pedaços são “costurados” dentro de nós no intricado movimento sutil e invisível que invade todos os sentidos e deixa agente “besta” de tanto feliz que se derrama e escorre pelos olhos, sorrisos e boca.

Faz muito frio e no minúsculo quarto estamos sentadas a escrever e esperar o sono se apresentar como quem espera um amigo na praça. Três camas num cubículo com três mulheres de felicidade gigante.

Neste lugar é possível um banho quente, mas em função das fortes dores de cabeça eu não conseguia nem mais andar e Ade também não se dispôs a ir. Eu havia levado medicamento receitado pelo otorrino e o unoprofen indicado pelo Rubens. Associo os dois e sinto o resultado se instalando pacientemente em mim, grata a Deus, ao medico e o meu consultor montanhista cuidadoso e meticuloso com tudo. Vale um registro:  o banheiro com letreiros escrito em francês, toilet e isso vai se repetir por toda a trilha. Um cafofo com vaso turco que à medida que os montanhistas vão chegando tornam-se catastróficos. São as condições improvisadas  da trilha. Paciência, que seja esse o preço para a contemplação diária do espetáculo que a natureza  nos proporciona.

 

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