ALINHAMENTO
CÓSMICO
Assim
estávamos revelando os sonhos e os medos da preparação, sentadas no restaurante
do Lodge, as três ao som de um mantra. Falávamos da força da energia que nos
impulsionou até ali e comentei que acredito muito na energia e sei que ela
forte, sinto - as em minhas mãos. Queria fazer terapia em Reiki, mas, não
encontrava ninguém em Vitória especialista na área. Os olhos de Ade brilham e
ela diz, eu sou uma terapeuta Reikiana. Estou sentindo uma forte energia!
Estávamos sentadas no confortável assento atapetado. Paula, eu e Ade como um triangulo.
Ade pede para eu me aproximar e me estende as mãos espalmadas e eu faço o mesmo
juntando as minhas mãos às dela. Ade fala para Paula, fica que essa energia
está passando para você também! É um momento de pura magia e serenidade.
Surpreendente e não planejado. Uma conexão ao som de um mantra e de energia das
mãos e com muita ternura. Ninguém entra no ambiente que tudo se torna um templo
de algo maravilhoso fluindo entre nós. Ade pede que eu deite e passa energia para minha cabeça e coração.
Paula medita e ficamos sentindo a espiritualidade preencher todo o ambiente.
Depois ao
conversarmos sobre um símbolo para essa nova caminhada ao interior de nós,
Paula que está a vencer sua limitação física com sérios problemas no joelho,
revela que essa experiência acendeu sua crença adormecida. Disse que pensava em
tatuar um lírio pela simbologia do lírio na parábola em que diz que não devemos
viver ansiosos por coisa alguma, mas que devemos ser como os lírios que não
tecem nem ceifam e ainda assim são belos. Eu lembrei que essa parábola faz
parte do sermão da montanha proferido por Jesus. Fica nítido que estamos sendo
conduzidas por algo maior que nós três. Sim, tudo é uma preparação para uma
expedição dentro de nós mesmas a descobrir e conquistar o Everest do nosso
interior!.
RAM
Nosso guia,
RAM, é um homem baixinho como todo nepalês. Cuidadoso, atencioso e muito
alegre. Esforça-se a nos entender com nosso limitado inglês cheio de sotaque. Divertimos-nos
muito com a “delicadeza” dos gestos. Ao sorrir ou concordar com algo dá-nos
pequenos tapas nas costas ou pequenos empurrões capazes de nos desequilibrar.
Seus gestos bruscos tentando ser gentil nos divertem. Acho que terei muitas
manchas roxas pelos braços. Adotamos o procedimento e vamos nos cumprimentando
com pequenos empurrões e tapas “ carinhosos”. Estamos sempre a sorrir com ele e
agradecer sua prontidão em nos servir.
AMANHECER EM NAMCHE BAZAR
São 06h00min e o dia amanhece limpo
sem o denso nevoeiro que cobriu o lugarejo durante todo o dia e noite anterior.
Abrimos a janela do quarto e vimos um espetáculo á nossa frente. As montanhas
com seus picos cobertos de neve e a lua a lhes fazer companhia irradiando luz e
grandeza. Meus olhos mergulharam na beleza generosa que enchia a vila alheia a
nós. Aqui não precisamos de bens, de possuir nada além do que necessitamos para
passar o dia. Aqui na montanha ao sentir
os raios do sol dourando e iluminando lentamente os picos como a saudar
compassivamente a todos os elementos da natureza, sinto-me mais humana e mais
consciente do que realmente importa. O sol nos saúda e basta simplesmente
dizer, bom dia montanhas amigas. Bom dia Namche, ainda estais quieta e
misteriosa. Como passou a noite? Bom dia nuvens lépidas e brancas. Bom dia
vida...Podia sentir a saudação para mim..Bom dia Quésia, que bom que estais aqui
!!!! E assim a cidade ia despertando sutilmente para viver mais um dia de sua
história. Eu ali na janela do quarto a
agradecer a Deus pelo privilégio em estar realizando um sonho. “Tudo é
possível ao que crê!”
SEGUINDO A TRILHA
Saímos cedo com o frescor dos ventos
que vinham das montanhas. O dia estava luminoso e pelo caminho vislumbramos o
imponente Everest, Ama Dablam e Lotse a instigar os caminhantes a parar e contemplar
sua beleza. Abaixo de nós, vales imensos com florestas de pinheiros. Flores
minúsculas e coloridas de um outono amarelo ocre desafiando com sua delicadeza
a compor o cenário de gigantes montanhas. “Se eu tivesse um dia para te dar,
este seria o dia”.
Depois de três horas e meia de descida
suave, paramos em um dos muitos lodges com restaurante para comermos, o de
sempre! Que importa? Estou no paraíso ouvindo a musica que toca o coração dos
meus amigos e assim toca o meu também e vivendo uma história que marcará minha
vida para sempre.
CHÁ DE FLORES E FELICIDADE
Depois de mais de duas horas de subida
intensa, chegamos a TENG BOCHE com 3.867 mt de altitude. Cheguei com
muita dor de cabeça e uma forte pressão na nuca. O desconforto era grande e
mesmo dispondo de medicamentos tinha uma sensação de mal estar muito intensa. O lugar dispõe de quartos
minúsculos e uma pequena estrutura de restaurante, internet que no dia não
funcionava e um grande mosteiro com movimentada visitação de turistas. O melhor
do lugar é pedir um chá de flores da região com sabor e perfume de uma
delicadeza ímpar. São as flores usadas também para fazer incenso. O melhor chá
que havia tomado na vida. Ficamos aquecidas no restaurante enquanto esperávamos
nosso jantar. A despeito da precariedade do ambiente, estávamos aquecidas e
confortáveis e bem atendidas. Os turistas vão chegando aos poucos, com seus
diversos estilos e fisionomias. Sem dúvida parecemos as pessoas mais felizes do
lugar. Estamos sempre cantando, sorrindo e brincando com nosso guia, ainda que
com dor de cabeça e um leve mal estar . Sim, felicidade é um estado de espírito
que acontece em função da escolha, do reconhecimento que a vida é feita de
momentos que nós fazemos de especial e seus pedaços são “costurados” dentro de
nós no intricado movimento sutil e invisível que invade todos os sentidos e
deixa agente “besta” de tanto feliz que se derrama e escorre pelos olhos,
sorrisos e boca.
Faz muito frio e no minúsculo quarto
estamos sentadas a escrever e esperar o sono se apresentar como quem espera um
amigo na praça. Três camas num cubículo com três mulheres de felicidade gigante.
Neste lugar é possível um banho
quente, mas em função das fortes dores de cabeça eu não conseguia nem mais andar
e Ade também não se dispôs a ir. Eu havia levado medicamento receitado pelo
otorrino e o unoprofen indicado pelo Rubens. Associo os dois e sinto o
resultado se instalando pacientemente em mim, grata a Deus, ao medico e o meu
consultor montanhista cuidadoso e meticuloso com tudo. Vale um registro: o banheiro com letreiros escrito em francês,
toilet e isso vai se repetir por toda a trilha. Um cafofo com vaso turco que à
medida que os montanhistas vão chegando tornam-se catastróficos. São as
condições improvisadas da trilha.
Paciência, que seja esse o preço para a contemplação diária do espetáculo que a
natureza nos proporciona.
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