KALAPATHAR A MORADA DOS ANJOS
Acordamos às quatro da manhã e nos
aquecemos ao máximo para seguirmos a trilha e conquistarmos a montanha que mais
nos desafiava, o kalapathar!. São 5550 mt de altitude e nunca havia chegado tão alto antes. Meu
Deus não tinha noção do que nos aguardava! No escuro e com muita neblina
andando com temperatura negativa de -5 º , o esforço era redobrado. A montanha
estava coberta com uma fina camada de gelo, assim como nossas roupas e até os
cílios. A água do cantil tinha cristalizado ficando dramático bebê-la, pois aumentava mais ainda a sensação de frio. Eu, a
princípio usava duas luvas e ainda assim sentia os dedos congelando e não podia
mais carregar os bastões. Os pés, mesmo com três meias estavam gelados e a
trilha á medida que subíamos ficava mais íngreme, pegajosa e difícil. Eu olhava
para cima procurando o pico e sentia que ele se afastava de nós. Quando os
primeiros raios de sol despertaram o amanhecer
para os mortais, e fazia isso em tecla slow motion, é que conseguimos sentir menos o desconforto causado pelo frio
e vento. As montanhas com seus picos sendo iluminadas pelos raios do sol tornavam
o cenário panorâmico, mas não menos penoso. Por alguns momentos achei que não
conseguiria chegar ao topo, mas a idéia de uma paisagem singular, ousada por
poucos nos instigava a prosseguir. Também não saberia conviver com a
possibilidade de ter desistido no meio do caminho quando podia ter ido mais.
Eram só mais alguns passos, mais fôlego e chegaríamos a 5550 mt com apenas 50%
de oxigênio no ar. Mas o que é isso ??
Nada para três mulheres guerreiras com espadas ( bastões) nas mãos!, pensava
comigo numa tentativa de ludibriar o desanimo que tentava se apoderar de mim
diante do desafio. Não havia conseguido tomar active, pois era muito cedo e não
tenho muita disposição para ingerir nada
pela manhã. Mas, devia ter feito em nome da responsabilidade com o corpo.
Estava sem nenhuma reserva de energia. No dia anterior havíamos andado mais de
onze horas e a noite de sono não foi suficiente para recuperar tanto esforço. Lembrei-me
muito do Rogério, meu amigo montanhista que conhece tanto das montanhas no mundo.
Que torce tanto por mim, que disse textualmente que eu era capaz. Então eu era!
Enfim, chegamos ao cume da montanha com enormes pedras irregulares, usando os
pés e as mãos!! E posso dizer, valeu a pena!! Deixem de ver tudo, até mesmo
deixe de ir ao acampamento base, mas, não deixem de ir ao kalapathar, eu deixo
este registro para quem quiser aprender um pouco com nossa experiência!. O
lugar é a morada dos anjos. Pensei em dizer que era a morada dos deuses, mas
pode ser que eles sejam vaidosos e queiram competir com a beleza do lugar. Kalapathar
é a morada dos anjos. E se você se
conectar pode vê-los voando por entre as montanhas mais lindas do mundo. Acho
que eles estão lá nos esperando e ficam a brincar de esconde- esconde com as
nuvens que ocultam e revelam o
encantamento do cinturão de montanhas mágicas! Deve ser o lugar mais perto da
beleza do céu. O único merecedor de encostar-se às alturas celestiais. O lotse é puro e majestoso. O Everest com seu
pico cristalizado e dourado pelo sol nascente. Tudo lindo e grandioso.
Estávamos acima das nuvens extasiadas com tanta generosidade em beleza. A neblina vinha e
escondia todas as montanhas e o vento faceiro soprava novamente para que retessemos
todo azul, todo o branco que nossa alma precisava e não sabia até aquele dia e
por isso era necessário registrar os contornos do Himalaia em nossa mente e
coração . Sabíamos que éramos privilegiadas por estarmos ali e o cansaço
tornou-se um preço pequeno a pagar, assim como o frio e as dores não
representavam mais nada diante do que
nossos olhos contemplavam. Terra sagrada!
AS MONTANHAS PERFUMADAS!
Depois do kalapathar, andamos mais
quatro horas e chegamos em LOBUCHE e depois de um repetido almoço, Paula
a comer batata, ovo e arroz tudo muito bem temperado com água e sal! Coitada de
minha amiga. Estava em situação deplorável. Tudo que comia também esvaziava.
Descansamos por uma hora e pegamos a trilha novamente com denso nevoeiro e
muito frio. Por todo o caminho tínhamos uns 30 centimetros de espaço para andar
na trilha e um abismo lá embaixo difícil de calcular a altura. Acho que se
tivesse alguém lá embaixo o veríamos do tamanho de um camundongo. Era
necessário cuidado para não cair. Pelo abismo se estendia um tapete colorido de
musgos vermelhos e verde intenso com
minúsculas flores azuis, lilás e branca até chegar ao rio que cortava todo o
vale. O vento gelado sussurrava seu canto misterioso e as brumas cada vez mais
densas compunha um cenário que me fazia esperar a qualquer momento a abertura
de um portal mágico, como nos filmes de Harry Porter . Andar por este caminho
me enchia de emoção e enternecia meu coração. Ao fazermos uma curva o perfume
das flores e dos arbustos de incenso invadiu meus sentidos perfumando minha
alma e meus pensamentos. Parei para sorver todo o delicado perfume que vinha ao
meu encontro. Começo a chorar compulsivamente e a soluçar de pura emoção. RAM,
nosso guia sem entender nada fica a dizer no cry, no problem e a Paula a olhar
com cumplicidade a minha emoção. Sigo chorando, mas feliz, embalada pelo doce
perfume das montanhas que inebria meus pensamentos, canções e poemas e que a partir daquele dia me acompanharia por toda
a trilha. Às 17:00 hs chegamos a Dzonglha, ao que seria o pior abrigo que ficaríamos. O
lugar é minúsculo, cheira a fumaça de cocô de iaque e temos uma cama de casal
para três em um quarto tão minúsculo que preciso sair para que uma das meninas
pudesse entrar. Sabíamos que precisaríamos de uma boa dose de bom humor para
enfrentarmos as dificuldades inerentes á expedição e aquele necessitava de uma
garrafa cheia desse humor prometido, afinal, havíamos andado onze horas e
estávamos mais que exaustas e com
cansaço acumulado.Mas, temos que admitir, quanta gente bonita naquele
lugar!!! Ainda tinha os insuportavelmente perfeitos assim definidos por nós:
lindo, simpático, educado e montanhista !! Assim o lugar não ficou tão feio
como descrito acima !! Mas, não temos
ânimo para paquera. Precisamos descansar e manter o foco. Neste dia comecei a
sentir dores na parte superior do fêmur e foi preciso ser medicada pelo doctor montain. Nem “colírio” sara uma dor dessas,
mas passou e nada de sustos, além do desconforto da Paula.
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