Por toda
parte as cachoeiras dão ao lugar um aspecto especial. O som terno que os ventos
trazem dão a impressão que tudo é vívido e pulsante. Surgem enormes pinheiros
com frutos azuis e a mata apresenta-se mais fechada e viçosa. Almoçamos em TAMO
com vistas às montanhas do Tibet. Que pena que não tínhamos colocado em
nosso roteiro uma trilha até o Tibet. Fiquei seduzida por essa possibilidade.
Ficamos com a visão do rio Tibet caudaloso e misterioso. Lembro-me da luta dos
povos da região pela liberdade e independência do Tibet que em função desse
sonho merecido e justo muitos já perderam suas vidas.
A visita ao
monastério não surpreende muito. São muitos símbolos, cores e cheiro de
incenso, mas sem nenhuma revelação adicional. O lugar é muito simples e dará
lugar a um novo templo que está sendo construído. É uma obra linda e conforme
previsão ficará pronto ano que vem. Quem sabe um de meus amigos poderá
retratá-los para mim quando aqui chegar?
Retornamos
como quem volta para completar as letras que faltam na palavra despedida.
Eu e Paula
andamos por Namche e encontramos uma comunidade repleta e agitada de turistas,
comércio intenso, idas e vindas de gente bonita carregando na mochila metas,
sonhos, desejos, cultura que tão diferentes parecem iguais. Jantamos falando de
nossos processos internos, nossos ritos, medos, anseios e a forma como lidamos
com nossos monstros que deixamos crescer dentro de nós, mas que a medida que o
domesticamos aprendemos a sermos melhores. Boas razões para estar no Himalaia,
atravessar as montanhas internas que escondem as bênçãos de um horizonte de
liberdade e consciência crítica ativada.
AS PONTES!
São dezenas
de pontes metálicas com lateral aramado,
fundo ( chão) vazado e todas enfeitadas com as bandeirinhas budistas tibetanas.
Elas ligam os abismos, quase sempre acima de um rio. São altas e lindas. Ao
passar junto com os animais e suas cargas pesadas, elas balançam
aumentando a emoção da travessia. O simbolismo das pontes sempre me encantou,
essas muito mais. Em um ambiente místico e ao mesmo tempo simples os homens
superam as distancias, transpõem barreiras e mantém suas culturas com beleza e
singela ao criar engenhosamente pontes que nos ensinam sobre como as
extremidades podem ser encurtadas e distancias transpostas. Precisamos aprender
com as pontes e aplicar esse ensinamento a nossa vida cheia de barreias e distancias
instransponíveis esperando coragem de edificarmos pontes em lugar de
desistirmos e aumentarmos o caminho da chegada.
OS
NEPALESES
Temos muito
a aprender com os nepaleses. São simples e muito simpáticos com postura honesta
nas relações em especial, como verificamos, no comércio. Estão sempre a
cumprimentar com um tímido NAMASTÊ! Estão sempre envolvidos em alguma
atividade. Talvez explique nunca encontramos um nepalês gordo. A base da
alimentação é a batata, repolho, arroz e massa, mas apenas uma porção.
No Nepal
fala-se em torno de 70 dialetos e existe mais de 30 etnias. É um povo tolerante
com sua diversidade religiosa, diferentemente da Índia e China seus vizinhos.
BRASILEIROS
RECONHECEM BRASILEIROS
Depois de
passarmos a noite em PHAKDING, lugar simples e pouco estruturado, mas
onde foi possível tomar um banho quente e fazermos uma refeição bem original:
Dal Bhat e massa sem molho para Paula. RAM resolveu nos conceituar por meio de
suas impressões e vivencia a nosso respeito, Quésia canta, Ade dança e Paula...
daí, ele faz o gesto que dela abaixando e ela diz:
Paula caga...Rimos muito com sua descontração conquistada em nossa companhia.
No retorno
vejo um homem negro ao fim de uma ponte e me chama a atenção. Era a primeira
pessoa negra que via em toda a trilha e quando ele vira, reconheço uma
bandeirinha do Brasil. Era um brasileiro e estava com um grupo de Belo
Horizonte. Cumprimentamos-nos, fizemos a típica festa de encontro de
brasileiros, tiramos fotos e seguimos viagem. Eles acharam surpreendente três
mulheres sozinhas fazendo a trilha no Nepal! Você não viu nada meu irmão.
Coragem é uma mulher parindo, o resto é fichinha!.
DESPEDINDO
DA TRILHA
Hoje é dia
sete de outubro e é o último dia de trilha. Mesmo com muita saudade de casa,
dos amigos, da vidinha besta em que me reconheço, sinto um aperto no coração. O
caminho é familiar e não sentimos cansaço. O dia está iluminado e vimos agora
muitos trekkers começando suas trilhas e muitos carregadores na sua árdua
tarefa de possibilitar os sonhos alheios por meio de sua força conquistada no
sangue de gerações em
gerações. Irão fazer e viver as mesmas experiências, ou pelo
menos parecidos com o que vivemos. Dá vontade de dizer, não desistam, vale a
pena. Mas estamos na trilha e precisamos seguir. Eles precisam seguir e
enfrentar também seus desafios. Vamos lembrando muitas canções e vamos
percebemos com mais nitidez as nuances dos lugares e das pessoas. Estamos
esvaziadas da ansiedade anterior e agora nossos olhos podem ver com mais
nitidez os elementos que compõem o lugar. Chegamos a LUKLA. Ficamos no
resort, um lodge como outro qualquer, chamado North face. Ade e Paula estão
cansadas e eu? Com toda a pilha!!!
Passamos uma tarde prazerosa no Starbucks. Abrimos emails, enchemos
nossos corações da alegria vinda do outro lado do mundo com as noticias e os
recadinhos encaminhados por parentes e amigos e saímos para explorar o local.
Vimos muitas crianças e adolescentes pelas ruas. Alguns tendo seu diferencial
do tipo físico típico da região por meio de penteados bem ocidentalizados
conseguidos com porções substanciais de gel. O comércio basicamente é voltado
para turistas com vendas de produtos de montanhismo e produtos de subsistência,
como algumas verduras e alimentos secos. È fácil imaginar o porquê de tanta
criança. No inverno onde não há presença de turistas as pessoas não tem mais
nada a fazer, apenas a ficar em casa e fazer filhos.
Dia
seguinte saímos bem cedo para o aeroporto de Lukla. Era nossa viagem de retorno
onde deixaríamos para trás as montanhas mágicas do Himalaia. Muitas revistas
nos pertences, revista pessoal, confusão, ida e vindas de passageiros, vôos
atrasados, mas muita sorte no tempo que muda conforme humor dos Deuses, estamos
novamente no minúsculo avião que vai sobrevoar a cordilheira do Himalaia .
Lá embaixo
as nuvens com sua delicadeza concorrem com a grande muralha branca que se
impõem por todo lado. Lá está a beleza que nossos olhos jamais vão esquecer.
Todos os tons de branco foram usados pelo criador em sua paleta divina que Ele
só usa em dias especiais de criação forma a cordilheira mais perfeita e
misteriosa que os mortais podem almejar.
Eu e Paula não resistimos olhar para as montanhas em despedida e choramos de
emoção. Saudade, alegria e gratidão. Temos a convicção do quanto somos
privilegiadas em contemplar o desfile de tanta beleza. Não existem conquistas
sem sacrifícios e nós fizemos o nosso. Não existe aprendizado sem esvaziamento
e nós nos permitimos isso. Não existe amadurecimento sem tornarmo-nos crianças
novamente e deixamo-nos brincar e viver. Não existe sabedoria se não
identificarmos nossos medos e o enfrentarmos. Não veremos a luz se não olharmos
as trevas de frente até dissipá-la. Não existe jóia se a pedra bruta não
permitir-se ser lapidada com dor, enfim não existe vitória sem sonhos e nossos
sonhos são do tamanho que ousamos sonhar. Os nossos eram do tamanho de uma
montanha. Nada mais, nada menos que a maior montanha do mundo, O EVEREST!!!
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