quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Free Tibet


Por toda parte as cachoeiras dão ao lugar um aspecto especial. O som terno que os ventos trazem dão a impressão que tudo é vívido e pulsante. Surgem enormes pinheiros com frutos azuis e a mata apresenta-se mais fechada e viçosa. Almoçamos em TAMO com vistas às montanhas do Tibet. Que pena que não tínhamos colocado em nosso roteiro uma trilha até o Tibet. Fiquei seduzida por essa possibilidade. Ficamos com a visão do rio Tibet caudaloso e misterioso. Lembro-me da luta dos povos da região pela liberdade e independência do Tibet que em função desse sonho merecido e justo muitos já perderam suas vidas.

A visita ao monastério não surpreende muito. São muitos símbolos, cores e cheiro de incenso, mas sem nenhuma revelação adicional. O lugar é muito simples e dará lugar a um novo templo que está sendo construído. É uma obra linda e conforme previsão ficará pronto ano que vem. Quem sabe um de meus amigos poderá retratá-los para mim quando aqui chegar?

Retornamos como quem volta para completar as letras que faltam na palavra despedida.

Eu e Paula andamos por Namche e encontramos uma comunidade repleta e agitada de turistas, comércio intenso, idas e vindas de gente bonita carregando na mochila metas, sonhos, desejos, cultura que tão diferentes parecem iguais. Jantamos falando de nossos processos internos, nossos ritos, medos, anseios e a forma como lidamos com nossos monstros que deixamos crescer dentro de nós, mas que a medida que o domesticamos aprendemos a sermos melhores. Boas razões para estar no Himalaia, atravessar as montanhas internas que escondem as bênçãos de um horizonte de liberdade e consciência crítica ativada.

 

 

 

AS PONTES!

 

São dezenas de pontes metálicas com  lateral aramado, fundo ( chão) vazado e todas enfeitadas com as bandeirinhas budistas tibetanas. Elas ligam os abismos, quase sempre acima de um rio. São altas e lindas. Ao passar junto com os  animais  e suas cargas pesadas, elas balançam aumentando a emoção da travessia. O simbolismo das pontes sempre me encantou, essas muito mais. Em um ambiente místico e ao mesmo tempo simples os homens superam as distancias, transpõem barreiras e mantém suas culturas com beleza e singela ao criar engenhosamente pontes que nos ensinam sobre como as extremidades podem ser encurtadas e distancias transpostas. Precisamos aprender com as pontes e aplicar esse ensinamento a nossa vida cheia de barreias e distancias instransponíveis esperando coragem de edificarmos pontes em lugar de desistirmos e aumentarmos o caminho da chegada.  

 

OS NEPALESES

 

Temos muito a aprender com os nepaleses. São simples e muito simpáticos com postura honesta nas relações em especial, como  verificamos, no comércio. Estão sempre a cumprimentar com um tímido NAMASTÊ! Estão sempre envolvidos em alguma atividade. Talvez explique nunca encontramos um nepalês gordo. A base da alimentação é a batata, repolho, arroz e massa, mas apenas uma porção.

No Nepal fala-se em torno de 70 dialetos e existe mais de 30 etnias. É um povo tolerante com sua diversidade religiosa, diferentemente da Índia e China seus vizinhos.

 

 

BRASILEIROS RECONHECEM BRASILEIROS

 

Depois de passarmos a noite em PHAKDING, lugar simples e pouco estruturado, mas onde foi possível tomar um banho quente e fazermos uma refeição bem original: Dal Bhat e massa sem molho para Paula. RAM resolveu nos conceituar por meio de suas impressões e vivencia a nosso respeito, Quésia canta, Ade dança e Paula... daí,  ele  faz o gesto que dela abaixando e ela diz: Paula caga...Rimos muito com sua descontração conquistada em nossa companhia.

No retorno vejo um homem negro ao fim de uma ponte e me chama a atenção. Era a primeira pessoa negra que via em toda a trilha e quando ele vira, reconheço uma bandeirinha do Brasil. Era um brasileiro e estava com um grupo de Belo Horizonte. Cumprimentamos-nos, fizemos a típica festa de encontro de brasileiros, tiramos fotos e seguimos viagem. Eles acharam surpreendente três mulheres sozinhas fazendo a trilha no Nepal! Você não viu nada meu irmão. Coragem é uma mulher parindo, o resto é fichinha!.

 

DESPEDINDO DA TRILHA

 

Hoje é dia sete de outubro e é o último dia de trilha. Mesmo com muita saudade de casa, dos amigos, da vidinha besta em que me reconheço, sinto um aperto no coração. O caminho é familiar e não sentimos cansaço. O dia está iluminado e vimos agora muitos trekkers começando suas trilhas e muitos carregadores na sua árdua tarefa de possibilitar os sonhos alheios por meio de sua força conquistada no sangue de gerações em gerações. Irão fazer e viver as mesmas experiências, ou pelo menos parecidos com o que vivemos. Dá vontade de dizer, não desistam, vale a pena. Mas estamos na trilha e precisamos seguir. Eles precisam seguir e enfrentar também seus desafios. Vamos lembrando muitas canções e vamos percebemos com mais nitidez as nuances dos lugares e das pessoas. Estamos esvaziadas da ansiedade anterior e agora nossos olhos podem ver com mais nitidez os elementos que compõem o lugar. Chegamos a LUKLA. Ficamos no resort, um lodge como outro qualquer, chamado North face. Ade e Paula estão cansadas e eu? Com toda a pilha!!!  Passamos uma tarde prazerosa no Starbucks. Abrimos emails, enchemos nossos corações da alegria vinda do outro lado do mundo com as noticias e os recadinhos encaminhados por parentes e amigos e saímos para explorar o local. Vimos muitas crianças e adolescentes pelas ruas. Alguns tendo seu diferencial do tipo físico típico da região por meio de penteados bem ocidentalizados conseguidos com porções substanciais de gel. O comércio basicamente é voltado para turistas com vendas de produtos de montanhismo e produtos de subsistência, como algumas verduras e alimentos secos. È fácil imaginar o porquê de tanta criança. No inverno onde não há presença de turistas as pessoas não tem mais nada a fazer, apenas a ficar em casa e fazer filhos.

Dia seguinte saímos bem cedo para o aeroporto de Lukla. Era nossa viagem de retorno onde deixaríamos para trás as montanhas mágicas do Himalaia. Muitas revistas nos pertences, revista pessoal, confusão, ida e vindas de passageiros, vôos atrasados, mas muita sorte no tempo que muda conforme humor dos Deuses, estamos novamente no minúsculo avião que vai sobrevoar a cordilheira do Himalaia .

Lá embaixo as nuvens com sua delicadeza concorrem com a grande muralha branca que se impõem por todo lado. Lá está a beleza que nossos olhos jamais vão esquecer. Todos os tons de branco foram usados pelo criador em sua paleta divina que Ele só usa em dias especiais de criação forma a cordilheira mais perfeita e misteriosa  que os mortais podem almejar. Eu e Paula não resistimos olhar para as montanhas em despedida e choramos de emoção. Saudade, alegria e gratidão. Temos a convicção do quanto somos privilegiadas em contemplar o desfile de tanta beleza. Não existem conquistas sem sacrifícios e nós fizemos o nosso. Não existe aprendizado sem esvaziamento e nós nos permitimos isso. Não existe amadurecimento sem tornarmo-nos crianças novamente e deixamo-nos brincar e viver. Não existe sabedoria se não identificarmos nossos medos e o enfrentarmos. Não veremos a luz se não olharmos as trevas de frente até dissipá-la. Não existe jóia se a pedra bruta não permitir-se ser lapidada com dor, enfim não existe vitória sem sonhos e nossos sonhos são do tamanho que ousamos sonhar. Os nossos eram do tamanho de uma montanha. Nada mais, nada menos que a maior montanha do mundo, O EVEREST!!! .

Nenhum comentário:

Postar um comentário