quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A montanha pulsa!


A MONTANHA ESTÁ VIVA!

 

Acordamos cedo em mais um dia de trilha e depois de um revigorante café, saímos para um amanhecer que nos fez cantar Happy Day. As montanhas lindas com seu branco a harmonizar o azul celestial de um céu sem nuvens nos enchem de paz.

O lugar ainda parece um cenário lunar ou um fundo de oceano esvaziado. Deparamo-nos com um paredão de quase 90º. Lembro-me de mestre Baldin que chamaria de escalaminhada e certamente usaria cordas cuidando da segurança como primeiro mandamento da aventura, mas, vamos subindo com o fôlego e a disposição que dispomos. Perde-se pouco a noção de tempo, espaço, perspectiva em função, acho, da amplidão e da mudança de padrões  de referencia.  O glaciar que agora vemos em toda a sua extensão deixa tudo com nuances transcendental. Ouvimos o deslocamento de um bloco que se desprende e estronda ao cair. A montanha está viva e avisa que está ali! Pedimos permissão para entrar? Peça então! Fiquei imaginando aquela trilha cheia de neve. Que bom que escolhemos o outono. Andamos por 3:00h30 Mn   e chegamos a GORAK SHEP A 5.180 MT de altitude e estamos bem e animadas pois vamos seguir a trilha até o acampamento base do Everest. Agora está mais perto e a ansiedade nos impulsiona desde a noite anterior.

 

BASE CAMP EVEREST

 

Andamos por umas três horas entre e sobre pedras. Um longo caminho que parecia não acabar mais. Vimos um glaciar enorme e quase todo coberto pelas pedras descidas das montanhas. Enquanto íamos a maioria das pessoas estavam voltando e isso nos inquietava á medida que aumentava os  ventos e o frio. Quando chegamos ao acampamento base e a despeito dele não ter nada de especial, estávamos felizes pela simbologia, pelo que representava e a partir dali apenas alpinistas seguiria. Era nossa meta! Conquistamos a vitória em estabelecer um objetivo e cumprir. Abrimos a bandeira do Brasil confeccionada pelos presos de Brasília do projeto Pintando a Liberdade e levada na mochila especialmente para aquela finalidade. No ES sou a coordenadora do projeto e tenho muito orgulho desse trabalho, portanto era simbólico levá-la. Logo dois nativos reconheceram nossa bandeira como sendo do Brasil e nos fotografaram e lembram de Ronaldinho, Pelé, Kaká. Viva o futebol de nossa terra que nos faz importante nos confins da terra. Ainda cantarolaram Brasil...Brasil ...Pra mim Brasil...música de Ary Barroso, cantada por muita gente boa.Yes! Coroação total!!!

Ficamos ali embasbacadas e emocionadas imaginando o caminho a ser percorrido pelos alpinistas. Ai que inveja deles. Queria também estar entre eles esperando o momento impar da conquista do cume. Essa inveja não diminui a felicidade, pelo contrário, aumenta a admiração e a importância em estar ali. Uma prece a todos os heróis das montanhas que deixaram suas vidas e seus corpos no coração da montanha. Ainda que nos sintamos fortes e privilegiados por estar ali, paradoxalmente nos damos conta da nossa fragilidade e mortalidade.

Lá embaixo muito gelo e uma montanha com seus mistérios a desafiar bravios homens e mulheres que vivem a vida na intensidade que nós pobres mortais não aventamos. Honrados homens das montanhas com sua sede e fome da voz da montanha e de sua energia. Quanta experiência pessoal, espiritual e existencial integra suas vivencias neste lugar de escasso acesso. Quantas almas tragadas na brancura da sargamatha? Quantas fronteiras pessoais e técnicas ultrapassadas para conquistar o topo de algo mais que montanha, o topo do sonho que cada um estabelece para si como incursões que não podemos entender pela racionalidade da lógica comum. Alguém que poe sua própria vida em risco para chegar a um objetivo não é um aventureiro irresponsável, mas um  homem  herói que alcança uma existência plena, pois foi fiel ao que acredita e  investiu suas forças e vida nesse propósito. Não foi uma vida vivida em vão, mas no topo do sonho e acima dos limites da mediocridade.

Ao retornarmos com ventos trazendo fortes rafagas deixam as meninas  exaustas, no entanto, eu estava revigorada . Ade tremia de frio e eu cantarolava as musicas da montanha. Mais uma noite sem banho. Acho também que não trocaria a cama por um banho. Estava tudo bem. Não tava sentindo falta de nada. Não precisava de nada. Não hoje!


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