Amigos, Trilhas e Montanhas
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Free Tibet
Por toda
parte as cachoeiras dão ao lugar um aspecto especial. O som terno que os ventos
trazem dão a impressão que tudo é vívido e pulsante. Surgem enormes pinheiros
com frutos azuis e a mata apresenta-se mais fechada e viçosa. Almoçamos em TAMO
com vistas às montanhas do Tibet. Que pena que não tínhamos colocado em
nosso roteiro uma trilha até o Tibet. Fiquei seduzida por essa possibilidade.
Ficamos com a visão do rio Tibet caudaloso e misterioso. Lembro-me da luta dos
povos da região pela liberdade e independência do Tibet que em função desse
sonho merecido e justo muitos já perderam suas vidas.
A visita ao
monastério não surpreende muito. São muitos símbolos, cores e cheiro de
incenso, mas sem nenhuma revelação adicional. O lugar é muito simples e dará
lugar a um novo templo que está sendo construído. É uma obra linda e conforme
previsão ficará pronto ano que vem. Quem sabe um de meus amigos poderá
retratá-los para mim quando aqui chegar?
Retornamos
como quem volta para completar as letras que faltam na palavra despedida.
Eu e Paula
andamos por Namche e encontramos uma comunidade repleta e agitada de turistas,
comércio intenso, idas e vindas de gente bonita carregando na mochila metas,
sonhos, desejos, cultura que tão diferentes parecem iguais. Jantamos falando de
nossos processos internos, nossos ritos, medos, anseios e a forma como lidamos
com nossos monstros que deixamos crescer dentro de nós, mas que a medida que o
domesticamos aprendemos a sermos melhores. Boas razões para estar no Himalaia,
atravessar as montanhas internas que escondem as bênçãos de um horizonte de
liberdade e consciência crítica ativada.
AS PONTES!
São dezenas
de pontes metálicas com lateral aramado,
fundo ( chão) vazado e todas enfeitadas com as bandeirinhas budistas tibetanas.
Elas ligam os abismos, quase sempre acima de um rio. São altas e lindas. Ao
passar junto com os animais e suas cargas pesadas, elas balançam
aumentando a emoção da travessia. O simbolismo das pontes sempre me encantou,
essas muito mais. Em um ambiente místico e ao mesmo tempo simples os homens
superam as distancias, transpõem barreiras e mantém suas culturas com beleza e
singela ao criar engenhosamente pontes que nos ensinam sobre como as
extremidades podem ser encurtadas e distancias transpostas. Precisamos aprender
com as pontes e aplicar esse ensinamento a nossa vida cheia de barreias e distancias
instransponíveis esperando coragem de edificarmos pontes em lugar de
desistirmos e aumentarmos o caminho da chegada.
OS
NEPALESES
Temos muito
a aprender com os nepaleses. São simples e muito simpáticos com postura honesta
nas relações em especial, como verificamos, no comércio. Estão sempre a
cumprimentar com um tímido NAMASTÊ! Estão sempre envolvidos em alguma
atividade. Talvez explique nunca encontramos um nepalês gordo. A base da
alimentação é a batata, repolho, arroz e massa, mas apenas uma porção.
No Nepal
fala-se em torno de 70 dialetos e existe mais de 30 etnias. É um povo tolerante
com sua diversidade religiosa, diferentemente da Índia e China seus vizinhos.
BRASILEIROS
RECONHECEM BRASILEIROS
Depois de
passarmos a noite em PHAKDING, lugar simples e pouco estruturado, mas
onde foi possível tomar um banho quente e fazermos uma refeição bem original:
Dal Bhat e massa sem molho para Paula. RAM resolveu nos conceituar por meio de
suas impressões e vivencia a nosso respeito, Quésia canta, Ade dança e Paula...
daí, ele faz o gesto que dela abaixando e ela diz:
Paula caga...Rimos muito com sua descontração conquistada em nossa companhia.
No retorno
vejo um homem negro ao fim de uma ponte e me chama a atenção. Era a primeira
pessoa negra que via em toda a trilha e quando ele vira, reconheço uma
bandeirinha do Brasil. Era um brasileiro e estava com um grupo de Belo
Horizonte. Cumprimentamos-nos, fizemos a típica festa de encontro de
brasileiros, tiramos fotos e seguimos viagem. Eles acharam surpreendente três
mulheres sozinhas fazendo a trilha no Nepal! Você não viu nada meu irmão.
Coragem é uma mulher parindo, o resto é fichinha!.
DESPEDINDO
DA TRILHA
Hoje é dia
sete de outubro e é o último dia de trilha. Mesmo com muita saudade de casa,
dos amigos, da vidinha besta em que me reconheço, sinto um aperto no coração. O
caminho é familiar e não sentimos cansaço. O dia está iluminado e vimos agora
muitos trekkers começando suas trilhas e muitos carregadores na sua árdua
tarefa de possibilitar os sonhos alheios por meio de sua força conquistada no
sangue de gerações em
gerações. Irão fazer e viver as mesmas experiências, ou pelo
menos parecidos com o que vivemos. Dá vontade de dizer, não desistam, vale a
pena. Mas estamos na trilha e precisamos seguir. Eles precisam seguir e
enfrentar também seus desafios. Vamos lembrando muitas canções e vamos
percebemos com mais nitidez as nuances dos lugares e das pessoas. Estamos
esvaziadas da ansiedade anterior e agora nossos olhos podem ver com mais
nitidez os elementos que compõem o lugar. Chegamos a LUKLA. Ficamos no
resort, um lodge como outro qualquer, chamado North face. Ade e Paula estão
cansadas e eu? Com toda a pilha!!!
Passamos uma tarde prazerosa no Starbucks. Abrimos emails, enchemos
nossos corações da alegria vinda do outro lado do mundo com as noticias e os
recadinhos encaminhados por parentes e amigos e saímos para explorar o local.
Vimos muitas crianças e adolescentes pelas ruas. Alguns tendo seu diferencial
do tipo físico típico da região por meio de penteados bem ocidentalizados
conseguidos com porções substanciais de gel. O comércio basicamente é voltado
para turistas com vendas de produtos de montanhismo e produtos de subsistência,
como algumas verduras e alimentos secos. È fácil imaginar o porquê de tanta
criança. No inverno onde não há presença de turistas as pessoas não tem mais
nada a fazer, apenas a ficar em casa e fazer filhos.
Dia
seguinte saímos bem cedo para o aeroporto de Lukla. Era nossa viagem de retorno
onde deixaríamos para trás as montanhas mágicas do Himalaia. Muitas revistas
nos pertences, revista pessoal, confusão, ida e vindas de passageiros, vôos
atrasados, mas muita sorte no tempo que muda conforme humor dos Deuses, estamos
novamente no minúsculo avião que vai sobrevoar a cordilheira do Himalaia .
Lá embaixo
as nuvens com sua delicadeza concorrem com a grande muralha branca que se
impõem por todo lado. Lá está a beleza que nossos olhos jamais vão esquecer.
Todos os tons de branco foram usados pelo criador em sua paleta divina que Ele
só usa em dias especiais de criação forma a cordilheira mais perfeita e
misteriosa que os mortais podem almejar.
Eu e Paula não resistimos olhar para as montanhas em despedida e choramos de
emoção. Saudade, alegria e gratidão. Temos a convicção do quanto somos
privilegiadas em contemplar o desfile de tanta beleza. Não existem conquistas
sem sacrifícios e nós fizemos o nosso. Não existe aprendizado sem esvaziamento
e nós nos permitimos isso. Não existe amadurecimento sem tornarmo-nos crianças
novamente e deixamo-nos brincar e viver. Não existe sabedoria se não
identificarmos nossos medos e o enfrentarmos. Não veremos a luz se não olharmos
as trevas de frente até dissipá-la. Não existe jóia se a pedra bruta não
permitir-se ser lapidada com dor, enfim não existe vitória sem sonhos e nossos
sonhos são do tamanho que ousamos sonhar. Os nossos eram do tamanho de uma
montanha. Nada mais, nada menos que a maior montanha do mundo, O EVEREST!!!
.
As montanhas nos aproximam de Deus
AS MONTANHAS NOS APROXIMAM DA
DIVINDADE
Seguimos para LUSA, um caminho
pela encosta das montanhas que eram adornadas por minúsculas flores e um rio de
águas fortes e brancas a correr abaixo de nós. Nem parece que é real. É como se
estivéssemos dentro do sonho, talvez a alma da minha’alma sonhando. Passamos por
lagos sagrados de Gokyo com montanhas cheias de vegetação colorida de vermelho
e amarelo. Cachoeiras imensas lambiam a montanha e alimentavam o rio turbulento.
Bosques apareciam ao som das muitas águas que faziam nossos olhos olharem para
o interior e buscarem tão somente o que era essencial. Não importa o caminho que buscamos trilhar se
ele não nos leva a Deus, seja lá qual seja nosso conceito de divindade, ao
final não teremos a sensação da vitoria
se o terminarmos da mesma forma que começamos . Tenho claro, como as águas
cristalinas, que a natureza que todo percurso precisa ter, é a da busca pelo
sentido da vida. Isso implica não nos concentrarmos em nossos desejos e
necessidades materiais, mas ultrapassarmos nossas fronteiras e olharmos os
desafios como escada necessária ao crescimento visando a generosidade, o amor,
aprendizagem do perdão, a solidariedade e o conhecimento da vontade de Deus e nosso percurso não terá sido em vão e nem nos
perderemos em nós mesmo.
As montanhas perfumadas me encantam e preciso
parar em muitos momentos para dizer-lhes o que estava sentido, para ser grata,
para deixar aos seus pés fragmentos de novos sonhos, para sorver a doçura do
seu perfume que me inebriava os pensamentos. Caminhava em silencio ouvindo o
sussurro dos ventos, sentindo a luz do sol a penetrar na pele. Pensava em tanta
gente querida e desejava-lhes a paz que estava sentindo. Alguém já perguntou a
alguém o que é felicidade? Eu me habilito a responder, é estar no caminho das
montanhas perfumadas agradecendo a Deus o presente da vida. E o resto? É resto!
Pedaços de história. RAM entende que preciso parar muitas vezes e fica ao longe
sem me chamar para retornar, sem conversar, sem interromper, respeitando meus
momentos de plenitude e realismo mágico!
Andamos o dia todo e esperávamos
chegar a Namche Bazar e encontrar a Paula, mas não foi possível. A última hora
de trilha foi extremamente desgastante. Os pés praticamente não saíam da
vertical . O dia anterior tinha deixado suas marcas e nossas forças estavam
exauridas e nos impunha limites. Pernoitamos em MONG LA . Um
lugarejo no alto da montanha e mesmo com muita neblina cobrindo toda a região
havia muitas crianças brincando. Tentamos saber notícias de Paula e não
conseguimos, ela devia estar em Namche bazar e não estava. Pirei!! Me senti
péssima e angustiada. Como ela estava se sentindo? Onde ela estava ? Vi aflorar
todo meu senso de proteção e cuidado exacerbado. Como pudemos deixá-la sozinha?
Lembrei-me da Paula nos fazendo ri ao dizer que tava cagando e andando. Como
era no sentido literal rimos muito e agora não tínhamos noticias de nossa
amiga. Minha preocupação exercia pressão no RAM que dizia que ela devia ter ligado
conforme combinado. Eu o deixava pior com meu aparente tormento. Ade disse que
sentia que ela estava bem, mas isso não era suficiente para acalmar meu coração
e ajoelhei-me à noite para orar pela segurança e saúde dela. Decidimos que não
pararíamos para conhecer um mosteiro e a região famosa pelas histórias de Iak e
seguimos para achá-la em outro lodge. Depois de uma noite mal dormida seguimos o
caminho de retorno e ainda na metade dele soubemos que Paula estava bem e que
havia estado em um lodge perto. Que alívio!! Pudemos observar a natureza com o
coração esvaziado da angustia que nos assolava anteriormente. A estrada era
mais larga e florida e muito iluminada
pelo sol. Parava constantemente para apreciar o jogo de luz e sombras que eram
projetadas pelo sol e pelas montanhas e sempre o perfume do doce incenso que
penetrava meus sentidos. RAM dizia: She will marry the montains! I Will!
ONDE DEUS
POSSA ME OUVIR
Invade-me
uma estranha sensação de que não voltaria mais ali e começa o caminho de
retorno com sabor de despedida. Precisava reter ao máximo a imagem do
gigantismo mágico do Himalaia. Muitos trekkers fazendo o caminho inverso
entremeavam a sensação de adeus. Queria eternizar as monumentais montanhas e
seu perfume em mim.
Sempre era
recorrente a canção que vinha á minha
mente, “ Onde Deus possa me ouvir” de Vander Lee. Néo me encaminhou esta canção
e quando ouvi pela primeira vez chorei de emoção. Eu o amo com amor eterno e
nos identificamos sem procurar entender nossa cumplicidade e confiança. Ele me
sugeriu a versão com Gal Costa que também é linda, mas para mim Vander Lee teve
inspiração divina ao compor e cantar essa canção. Por muitas vezes as meninas
também começaram a cantarolar sem nunca ter ouvido antes, de tanto que cantei
na trilha. Para mim, foi a canção do Everest...Amo mais ainda Neo !
Que
maravilha que começamos a trilha antes da alta temporada. Congestionamento na
trilha pode tirar em muito a mágica do lugar. Bom mesmo é só priorizar passagem
para os iaques, do contrário é difícil manter o pensamento meditativo
esbarrando em caminhantes o tempo todo.
Depois de
muitos dias com várias camadas de roupas podíamos agora ficar apenas com uma
camada só. Kyangjuma ficará marcado como o local que aliviou nossos corações,
pois aqui tivemos noticia da nossa amiga e apaixonada Paula.
Montanhas Perfumadas!
KALAPATHAR A MORADA DOS ANJOS
Acordamos às quatro da manhã e nos
aquecemos ao máximo para seguirmos a trilha e conquistarmos a montanha que mais
nos desafiava, o kalapathar!. São 5550 mt de altitude e nunca havia chegado tão alto antes. Meu
Deus não tinha noção do que nos aguardava! No escuro e com muita neblina
andando com temperatura negativa de -5 º , o esforço era redobrado. A montanha
estava coberta com uma fina camada de gelo, assim como nossas roupas e até os
cílios. A água do cantil tinha cristalizado ficando dramático bebê-la, pois aumentava mais ainda a sensação de frio. Eu, a
princípio usava duas luvas e ainda assim sentia os dedos congelando e não podia
mais carregar os bastões. Os pés, mesmo com três meias estavam gelados e a
trilha á medida que subíamos ficava mais íngreme, pegajosa e difícil. Eu olhava
para cima procurando o pico e sentia que ele se afastava de nós. Quando os
primeiros raios de sol despertaram o amanhecer
para os mortais, e fazia isso em tecla slow motion, é que conseguimos sentir menos o desconforto causado pelo frio
e vento. As montanhas com seus picos sendo iluminadas pelos raios do sol tornavam
o cenário panorâmico, mas não menos penoso. Por alguns momentos achei que não
conseguiria chegar ao topo, mas a idéia de uma paisagem singular, ousada por
poucos nos instigava a prosseguir. Também não saberia conviver com a
possibilidade de ter desistido no meio do caminho quando podia ter ido mais.
Eram só mais alguns passos, mais fôlego e chegaríamos a 5550 mt com apenas 50%
de oxigênio no ar. Mas o que é isso ??
Nada para três mulheres guerreiras com espadas ( bastões) nas mãos!, pensava
comigo numa tentativa de ludibriar o desanimo que tentava se apoderar de mim
diante do desafio. Não havia conseguido tomar active, pois era muito cedo e não
tenho muita disposição para ingerir nada
pela manhã. Mas, devia ter feito em nome da responsabilidade com o corpo.
Estava sem nenhuma reserva de energia. No dia anterior havíamos andado mais de
onze horas e a noite de sono não foi suficiente para recuperar tanto esforço. Lembrei-me
muito do Rogério, meu amigo montanhista que conhece tanto das montanhas no mundo.
Que torce tanto por mim, que disse textualmente que eu era capaz. Então eu era!
Enfim, chegamos ao cume da montanha com enormes pedras irregulares, usando os
pés e as mãos!! E posso dizer, valeu a pena!! Deixem de ver tudo, até mesmo
deixe de ir ao acampamento base, mas, não deixem de ir ao kalapathar, eu deixo
este registro para quem quiser aprender um pouco com nossa experiência!. O
lugar é a morada dos anjos. Pensei em dizer que era a morada dos deuses, mas
pode ser que eles sejam vaidosos e queiram competir com a beleza do lugar. Kalapathar
é a morada dos anjos. E se você se
conectar pode vê-los voando por entre as montanhas mais lindas do mundo. Acho
que eles estão lá nos esperando e ficam a brincar de esconde- esconde com as
nuvens que ocultam e revelam o
encantamento do cinturão de montanhas mágicas! Deve ser o lugar mais perto da
beleza do céu. O único merecedor de encostar-se às alturas celestiais. O lotse é puro e majestoso. O Everest com seu
pico cristalizado e dourado pelo sol nascente. Tudo lindo e grandioso.
Estávamos acima das nuvens extasiadas com tanta generosidade em beleza. A neblina vinha e
escondia todas as montanhas e o vento faceiro soprava novamente para que retessemos
todo azul, todo o branco que nossa alma precisava e não sabia até aquele dia e
por isso era necessário registrar os contornos do Himalaia em nossa mente e
coração . Sabíamos que éramos privilegiadas por estarmos ali e o cansaço
tornou-se um preço pequeno a pagar, assim como o frio e as dores não
representavam mais nada diante do que
nossos olhos contemplavam. Terra sagrada!
AS MONTANHAS PERFUMADAS!
Depois do kalapathar, andamos mais
quatro horas e chegamos em LOBUCHE e depois de um repetido almoço, Paula
a comer batata, ovo e arroz tudo muito bem temperado com água e sal! Coitada de
minha amiga. Estava em situação deplorável. Tudo que comia também esvaziava.
Descansamos por uma hora e pegamos a trilha novamente com denso nevoeiro e
muito frio. Por todo o caminho tínhamos uns 30 centimetros de espaço para andar
na trilha e um abismo lá embaixo difícil de calcular a altura. Acho que se
tivesse alguém lá embaixo o veríamos do tamanho de um camundongo. Era
necessário cuidado para não cair. Pelo abismo se estendia um tapete colorido de
musgos vermelhos e verde intenso com
minúsculas flores azuis, lilás e branca até chegar ao rio que cortava todo o
vale. O vento gelado sussurrava seu canto misterioso e as brumas cada vez mais
densas compunha um cenário que me fazia esperar a qualquer momento a abertura
de um portal mágico, como nos filmes de Harry Porter . Andar por este caminho
me enchia de emoção e enternecia meu coração. Ao fazermos uma curva o perfume
das flores e dos arbustos de incenso invadiu meus sentidos perfumando minha
alma e meus pensamentos. Parei para sorver todo o delicado perfume que vinha ao
meu encontro. Começo a chorar compulsivamente e a soluçar de pura emoção. RAM,
nosso guia sem entender nada fica a dizer no cry, no problem e a Paula a olhar
com cumplicidade a minha emoção. Sigo chorando, mas feliz, embalada pelo doce
perfume das montanhas que inebria meus pensamentos, canções e poemas e que a partir daquele dia me acompanharia por toda
a trilha. Às 17:00 hs chegamos a Dzonglha, ao que seria o pior abrigo que ficaríamos. O
lugar é minúsculo, cheira a fumaça de cocô de iaque e temos uma cama de casal
para três em um quarto tão minúsculo que preciso sair para que uma das meninas
pudesse entrar. Sabíamos que precisaríamos de uma boa dose de bom humor para
enfrentarmos as dificuldades inerentes á expedição e aquele necessitava de uma
garrafa cheia desse humor prometido, afinal, havíamos andado onze horas e
estávamos mais que exaustas e com
cansaço acumulado.Mas, temos que admitir, quanta gente bonita naquele
lugar!!! Ainda tinha os insuportavelmente perfeitos assim definidos por nós:
lindo, simpático, educado e montanhista !! Assim o lugar não ficou tão feio
como descrito acima !! Mas, não temos
ânimo para paquera. Precisamos descansar e manter o foco. Neste dia comecei a
sentir dores na parte superior do fêmur e foi preciso ser medicada pelo doctor montain. Nem “colírio” sara uma dor dessas,
mas passou e nada de sustos, além do desconforto da Paula.
A montanha pulsa!
A MONTANHA ESTÁ VIVA!
Acordamos cedo em mais um dia de
trilha e depois de um revigorante café, saímos para um amanhecer que nos fez
cantar Happy Day. As montanhas lindas com seu branco a harmonizar o azul
celestial de um céu sem nuvens nos enchem de paz.
O lugar ainda parece um cenário lunar
ou um fundo de oceano esvaziado. Deparamo-nos com um paredão de quase 90º.
Lembro-me de mestre Baldin que chamaria de escalaminhada e certamente usaria
cordas cuidando da segurança como primeiro mandamento da aventura, mas, vamos
subindo com o fôlego e a disposição que dispomos. Perde-se pouco a noção de
tempo, espaço, perspectiva em função, acho, da amplidão e da mudança de
padrões de referencia. O glaciar que agora vemos em toda a sua
extensão deixa tudo com nuances transcendental. Ouvimos o deslocamento de um
bloco que se desprende e estronda ao cair. A montanha está viva e avisa que
está ali! Pedimos permissão para entrar? Peça então! Fiquei imaginando aquela
trilha cheia de neve. Que bom que escolhemos o outono. Andamos por 3:00h30 Mn e chegamos a GORAK SHEP A 5.180 MT de
altitude e estamos bem e animadas pois vamos seguir a trilha até o acampamento
base do Everest. Agora está mais perto e a ansiedade nos impulsiona desde a
noite anterior.
BASE CAMP EVEREST
Andamos por umas três horas entre e
sobre pedras. Um longo caminho que parecia não acabar mais. Vimos um glaciar
enorme e quase todo coberto pelas pedras descidas das montanhas. Enquanto íamos
a maioria das pessoas estavam voltando e isso nos inquietava á medida que
aumentava os ventos e o frio. Quando
chegamos ao acampamento base e a despeito dele não ter nada de especial,
estávamos felizes pela simbologia, pelo que representava e a partir dali apenas
alpinistas seguiria. Era nossa meta! Conquistamos a vitória em estabelecer um
objetivo e cumprir. Abrimos a bandeira do Brasil confeccionada pelos presos de
Brasília do projeto Pintando a Liberdade e levada na mochila especialmente para
aquela finalidade. No ES sou a coordenadora do projeto e tenho muito orgulho
desse trabalho, portanto era simbólico levá-la. Logo dois nativos reconheceram
nossa bandeira como sendo do Brasil e nos fotografaram e lembram de Ronaldinho,
Pelé, Kaká. Viva o futebol de nossa terra que nos faz importante nos confins da
terra. Ainda cantarolaram Brasil...Brasil ...Pra mim Brasil...música de Ary
Barroso, cantada por muita gente boa.Yes! Coroação total!!!
Ficamos ali embasbacadas e emocionadas
imaginando o caminho a ser percorrido pelos alpinistas. Ai que inveja deles.
Queria também estar entre eles esperando o momento impar da conquista do cume. Essa
inveja não diminui a felicidade, pelo contrário, aumenta a admiração e a
importância em estar ali. Uma prece a todos os heróis das montanhas que
deixaram suas vidas e seus corpos no coração da montanha. Ainda que nos
sintamos fortes e privilegiados por estar ali, paradoxalmente nos damos conta
da nossa fragilidade e mortalidade.
Lá embaixo muito gelo e uma montanha
com seus mistérios a desafiar bravios homens e mulheres que vivem a vida na
intensidade que nós pobres mortais não aventamos. Honrados homens das montanhas
com sua sede e fome da voz da montanha e de sua energia. Quanta experiência
pessoal, espiritual e existencial integra suas vivencias neste lugar de escasso
acesso. Quantas almas tragadas na brancura da sargamatha? Quantas fronteiras
pessoais e técnicas ultrapassadas para conquistar o topo de algo mais que
montanha, o topo do sonho que cada um estabelece para si como incursões que não
podemos entender pela racionalidade da lógica comum. Alguém que poe sua própria
vida em risco para chegar a um objetivo não é um aventureiro irresponsável, mas
um homem herói que alcança uma existência plena, pois
foi fiel ao que acredita e investiu suas
forças e vida nesse propósito. Não foi uma vida vivida em vão, mas no topo do
sonho e acima dos limites da mediocridade.
Ao retornarmos com ventos trazendo
fortes rafagas deixam as meninas exaustas,
no entanto, eu estava revigorada . Ade tremia de frio e eu cantarolava as
musicas da montanha. Mais uma noite sem banho. Acho também que não trocaria a
cama por um banho. Estava tudo bem. Não tava sentindo falta de nada. Não
precisava de nada. Não hoje!
A montanha pulsa!
A MONTANHA ESTÁ VIVA!
Acordamos cedo em mais um dia de
trilha e depois de um revigorante café, saímos para um amanhecer que nos fez
cantar Happy Day. As montanhas lindas com seu branco a harmonizar o azul
celestial de um céu sem nuvens nos enchem de paz.
O lugar ainda parece um cenário lunar
ou um fundo de oceano esvaziado. Deparamo-nos com um paredão de quase 90º.
Lembro-me de mestre Baldin que chamaria de escalaminhada e certamente usaria
cordas cuidando da segurança como primeiro mandamento da aventura, mas, vamos
subindo com o fôlego e a disposição que dispomos. Perde-se pouco a noção de
tempo, espaço, perspectiva em função, acho, da amplidão e da mudança de
padrões de referencia. O glaciar que agora vemos em toda a sua
extensão deixa tudo com nuances transcendental. Ouvimos o deslocamento de um
bloco que se desprende e estronda ao cair. A montanha está viva e avisa que
está ali! Pedimos permissão para entrar? Peça então! Fiquei imaginando aquela
trilha cheia de neve. Que bom que escolhemos o outono. Andamos por 3:00h30 Mn e chegamos a GORAK SHEP A 5.180 MT de
altitude e estamos bem e animadas pois vamos seguir a trilha até o acampamento
base do Everest. Agora está mais perto e a ansiedade nos impulsiona desde a
noite anterior.
BASE CAMP EVEREST
Andamos por umas três horas entre e
sobre pedras. Um longo caminho que parecia não acabar mais. Vimos um glaciar
enorme e quase todo coberto pelas pedras descidas das montanhas. Enquanto íamos
a maioria das pessoas estavam voltando e isso nos inquietava á medida que
aumentava os ventos e o frio. Quando
chegamos ao acampamento base e a despeito dele não ter nada de especial,
estávamos felizes pela simbologia, pelo que representava e a partir dali apenas
alpinistas seguiria. Era nossa meta! Conquistamos a vitória em estabelecer um
objetivo e cumprir. Abrimos a bandeira do Brasil confeccionada pelos presos de
Brasília do projeto Pintando a Liberdade e levada na mochila especialmente para
aquela finalidade. No ES sou a coordenadora do projeto e tenho muito orgulho
desse trabalho, portanto era simbólico levá-la. Logo dois nativos reconheceram
nossa bandeira como sendo do Brasil e nos fotografaram e lembram de Ronaldinho,
Pelé, Kaká. Viva o futebol de nossa terra que nos faz importante nos confins da
terra. Ainda cantarolaram Brasil...Brasil ...Pra mim Brasil...música de Ary
Barroso, cantada por muita gente boa.Yes! Coroação total!!!
Ficamos ali embasbacadas e emocionadas
imaginando o caminho a ser percorrido pelos alpinistas. Ai que inveja deles.
Queria também estar entre eles esperando o momento impar da conquista do cume. Essa
inveja não diminui a felicidade, pelo contrário, aumenta a admiração e a
importância em estar ali. Uma prece a todos os heróis das montanhas que
deixaram suas vidas e seus corpos no coração da montanha. Ainda que nos
sintamos fortes e privilegiados por estar ali, paradoxalmente nos damos conta
da nossa fragilidade e mortalidade.
Lá embaixo muito gelo e uma montanha
com seus mistérios a desafiar bravios homens e mulheres que vivem a vida na
intensidade que nós pobres mortais não aventamos. Honrados homens das montanhas
com sua sede e fome da voz da montanha e de sua energia. Quanta experiência
pessoal, espiritual e existencial integra suas vivencias neste lugar de escasso
acesso. Quantas almas tragadas na brancura da sargamatha? Quantas fronteiras
pessoais e técnicas ultrapassadas para conquistar o topo de algo mais que
montanha, o topo do sonho que cada um estabelece para si como incursões que não
podemos entender pela racionalidade da lógica comum. Alguém que poe sua própria
vida em risco para chegar a um objetivo não é um aventureiro irresponsável, mas
um homem herói que alcança uma existência plena, pois
foi fiel ao que acredita e investiu suas
forças e vida nesse propósito. Não foi uma vida vivida em vão, mas no topo do
sonho e acima dos limites da mediocridade.
Ao retornarmos com ventos trazendo
fortes rafagas deixam as meninas exaustas,
no entanto, eu estava revigorada . Ade tremia de frio e eu cantarolava as
musicas da montanha. Mais uma noite sem banho. Acho também que não trocaria a
cama por um banho. Estava tudo bem. Não tava sentindo falta de nada. Não
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