A MONTANHA ESTÁ VIVA!
Acordamos cedo em mais um dia de
trilha e depois de um revigorante café, saímos para um amanhecer que nos fez
cantar Happy Day. As montanhas lindas com seu branco a harmonizar o azul
celestial de um céu sem nuvens nos enchem de paz.
O lugar ainda parece um cenário lunar
ou um fundo de oceano esvaziado. Deparamo-nos com um paredão de quase 90º.
Lembro-me de mestre Baldin que chamaria de escalaminhada e certamente usaria
cordas cuidando da segurança como primeiro mandamento da aventura, mas, vamos
subindo com o fôlego e a disposição que dispomos. Perde-se pouco a noção de
tempo, espaço, perspectiva em função, acho, da amplidão e da mudança de
padrões de referencia. O glaciar que agora vemos em toda a sua
extensão deixa tudo com nuances transcendental. Ouvimos o deslocamento de um
bloco que se desprende e estronda ao cair. A montanha está viva e avisa que
está ali! Pedimos permissão para entrar? Peça então! Fiquei imaginando aquela
trilha cheia de neve. Que bom que escolhemos o outono. Andamos por 3:00h30 Mn e chegamos a GORAK SHEP A 5.180 MT de
altitude e estamos bem e animadas pois vamos seguir a trilha até o acampamento
base do Everest. Agora está mais perto e a ansiedade nos impulsiona desde a
noite anterior.
BASE CAMP EVEREST
Andamos por umas três horas entre e
sobre pedras. Um longo caminho que parecia não acabar mais. Vimos um glaciar
enorme e quase todo coberto pelas pedras descidas das montanhas. Enquanto íamos
a maioria das pessoas estavam voltando e isso nos inquietava á medida que
aumentava os ventos e o frio. Quando
chegamos ao acampamento base e a despeito dele não ter nada de especial,
estávamos felizes pela simbologia, pelo que representava e a partir dali apenas
alpinistas seguiria. Era nossa meta! Conquistamos a vitória em estabelecer um
objetivo e cumprir. Abrimos a bandeira do Brasil confeccionada pelos presos de
Brasília do projeto Pintando a Liberdade e levada na mochila especialmente para
aquela finalidade. No ES sou a coordenadora do projeto e tenho muito orgulho
desse trabalho, portanto era simbólico levá-la. Logo dois nativos reconheceram
nossa bandeira como sendo do Brasil e nos fotografaram e lembram de Ronaldinho,
Pelé, Kaká. Viva o futebol de nossa terra que nos faz importante nos confins da
terra. Ainda cantarolaram Brasil...Brasil ...Pra mim Brasil...música de Ary
Barroso, cantada por muita gente boa.Yes! Coroação total!!!
Ficamos ali embasbacadas e emocionadas
imaginando o caminho a ser percorrido pelos alpinistas. Ai que inveja deles.
Queria também estar entre eles esperando o momento impar da conquista do cume. Essa
inveja não diminui a felicidade, pelo contrário, aumenta a admiração e a
importância em estar ali. Uma prece a todos os heróis das montanhas que
deixaram suas vidas e seus corpos no coração da montanha. Ainda que nos
sintamos fortes e privilegiados por estar ali, paradoxalmente nos damos conta
da nossa fragilidade e mortalidade.
Lá embaixo muito gelo e uma montanha
com seus mistérios a desafiar bravios homens e mulheres que vivem a vida na
intensidade que nós pobres mortais não aventamos. Honrados homens das montanhas
com sua sede e fome da voz da montanha e de sua energia. Quanta experiência
pessoal, espiritual e existencial integra suas vivencias neste lugar de escasso
acesso. Quantas almas tragadas na brancura da sargamatha? Quantas fronteiras
pessoais e técnicas ultrapassadas para conquistar o topo de algo mais que
montanha, o topo do sonho que cada um estabelece para si como incursões que não
podemos entender pela racionalidade da lógica comum. Alguém que poe sua própria
vida em risco para chegar a um objetivo não é um aventureiro irresponsável, mas
um homem herói que alcança uma existência plena, pois
foi fiel ao que acredita e investiu suas
forças e vida nesse propósito. Não foi uma vida vivida em vão, mas no topo do
sonho e acima dos limites da mediocridade.
Ao retornarmos com ventos trazendo
fortes rafagas deixam as meninas exaustas,
no entanto, eu estava revigorada . Ade tremia de frio e eu cantarolava as
musicas da montanha. Mais uma noite sem banho. Acho também que não trocaria a
cama por um banho. Estava tudo bem. Não tava sentindo falta de nada. Não
precisava de nada. Não hoje!
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