QUINTO DIA
Saímos cedo e é o quinto dia da
expedição. Logo depois das 02h30min chegamos a PANGBOCHE a 4000 mt de altitude. Todos estão bem, mas vale um descanso
para recuperar as forças. A subida é pela encosta da montanha e caminhar contornando-a
mais ou menos pela metade dela sentindo o vale abaixo de nós é uma sensação indescritível.
Do outro lado vemos altíssimas montanhas com suas arvores imensas que como um manto de veludo
verde em vários tons vai cobrindo sua face. A trilha é sinuosa e cheia de
pedras irregulares e pela montanha pequenos arbustos vermelhos e minúsculas
flores brancas a espalhar-se delicadamente como quem anuncia, minha fragilidade
é a força da minha beleza. Por entre esse
gigantesco cannyon o rio de águas
ruidosas e brancas correm em curvas abertas seguindo o curso do seu destino com
as pedras brancas e arredondadas a lhes fazer companhia. O som revela uma
composição única e indecifrável levando para longe os mistérios do vale. Ao
chegarmos a SUMARE, um pequeno lodge
com jeito de abrigo rodeado de janelas com vidros que possibilitam clarear o
ambiente com a luz do dia paramos para almoçar. A luz do dia que generosamente
ilumina a todos os caminhantes que se aventuram pelo Himalaia funciona como um
estimulante e renova as forças e retiram as teias de aranha da mente e ocupa
todos os espaços com seu poder. Hoje comerei Rice fried com vegetais!
Usar o banheiro não é nenhuma
experiência poética como andar pelas majestosas montanhas. Normalmente um
casebre com um buraco no chão com uma pilha de capim seco para cobrir o que ali
foi deixado. Dependendo do estado, demora-se um pouco para recuperar-se da
experiência. Paula que o diga! Estava em um que era dividido em dois por uma
parede de folha de zinco e quem estava
ao lado gemia horrores. Valha-me Deus do céu!
A partir daqui a paisagem muda
significativamente. É como um divisor da natureza. A vegetação antes densa de
arvores, transforma-se em montanhas arenosas com resistentes arbustos verde
musgo que ainda na ausência de
fertilidade do solo fica florido na primavera
e suas flores são usadas para incenso e chá. À medida que andamos a
trilha fica cada vez mais arenosa com pedras redondas como se ali fosse
anteriormente um leito de rio. Chegamos em DINGBOCHE! Trata-se de um
vilarejo com razoável estrutura,energia
solar, banho a gás e muitos outros lodges que criam um movimento de pessoas
indo e vindo com seus sonhos e metas de trilheiros. Ficamos em Peac Ful e foi possível
usar a internet a 20 rupees por minuto, razoável. Dividi um quarto com Ade e
Paula ficou em um sozinha. Eu e ade combinamos bem e Paula dorme melhor assim.
O lugar é aconchegante, mas como é difícil escolher o mesmo cardápio no café da
manhã, almoço e jantar. Daqui é possível avistar Ama Dablam, Lotse, Taluche,
Cholatse, Neyse isban Peak.
Os montes nevados abraçam o vilarejo
como a todos nós que chegamos ávidos por sua beleza. Ficaremos dois dias para
aclimatação, afinal eu e Paula estamos com dor de cabeça e pressão na nuca e a
Paula esvai-se no banheiro o tempo todo. Faz um dia lindo com muita luz, ventos
gelados e eu adoro isso! Aproveitamos para passear, fotografar, lavar roupa e
beber chá de folhas frescas de hortelãs. Como em todos os lodges é no
restaurante que todas as tribos se encontram. Montanhistas, guias, sherpas,
turistas democraticamente compartilham o caloroso e aconchegante ambiente
enquanto a noite cai gelada trazendo todos para o mesmo lugar.
Quase todos os lodges têm a mesma
disposição e estrutura. São longos bancos de madeira atapetados e encostados na
janela que contornam todo o ambiente. Normalmente as janelas são de vidros e
revelam a paisagem lá fora e de qualquer lugar do restaurante é possível
contemplar o quadro emoldurado da estonteante beleza que aflora como poesia . Á frente dos bancos ficam as mesas bem
baixas e envernizadas em tom claro. É
sempre uma delicia repousar em um ambiente assim depois de um dia de caminhada,
em especial comer uma comida quente e um tomar um chá que lembra um abraço de
tão aconchegante. Estamos no 6º dia!
SEXTO DIA
O Dal Bhat ( guisado de lentilha com
uma porção de arroz e batata) é meu prato predileto que além de saboroso repõe
minhas energias rapidamente. Me sinto uma rainha neste lugar de tanta privação
e nem por isso menos bonito que o lugar mais rico do mundo. A vida em Ding
Boche segue em seu ritmo e dinâmica próprios dos
lugarejos da região. Homens e mulheres a trabalhar na lavoura de subsistência e
nos serviços de atendimento aos montanhistas. Aqui fica claro que não existe
divisão de tarefas por gênero. Homens e mulheres estão envolvidos em atividades
de manutenção, agricultura, serviços de cozinha ou ainda na preparação do
excremento dos iaques que depois de amassados e modelados como discos de vinil
são secos ao sol e guardados empilhados para serem utilizados como combustível.
Energia alternativa para uma região que precisa encontrar meios de subsistência
e sustentabilidade. Essa prática era muito mais comum, mas com a chegada da
energia solar são utilizados mais em aquecedores. Todo
o trabalho parece pesado com instrumentos ainda muito rudimentares, mas seguem
levando suas vidas e significando por meios de suas culturas e crenças.
Um dos melhores momentos do dia foi
ouvir o RAM demonstrando sua farmácia para nós. Ele tinha de tudo e demonstrava
a aplicabilidade de cada um por meio de mímicas e isso nos fazia cair na
gargalhada. O apelidamos de best montain doctor. Retornamos ao restaurante para
um delicioso chá e esperamos a noite chegar. Quando saímos para o quarto
ficamos impactadas com a beleza do céu na noite de todas estrelas. Ficamos
olhando o céu por muito tempo sem acreditar que um mesmo céu podia ser tão lindo aqui. Ele se
apresentava brilhante como pirilampos e indiferente a quem se dispusesse a olhar para cima e ser
tocado pela mágica que a noite no Himalaia reserva . Era uma abóboda piscando milhares de milhares de estrelas! Não sabia
que cabia tanta estrela a brilhar ao mesmo tempo no único céu que é tanto céu
de uma só vez até aquele dia. Todas muitas juntas como se falassem que a união
do brilho faz o céu intenso e vivo sem que pudéssemos definir quem era maior ou
mais brilhante. Ficamos assim olhando para o céu e girando sobre o próprio eixo
até que frio nos dominasse. Entramos silenciosas como se fosse possível reter
nos olhos a beleza do céu no seu firmamento misterioso e mágico.
TRABALHO DE ARTÍFICE
As propriedades e as lavouras são
cercadas por baixos muros de pedras. Eles são largos e acomodados sem nenhum
rejunte. É um perfeito trabalho de artífice. São simétricos e padronizados,
meticulosamente encaixados para ficarem firmes e além de proteger o solo em
função do desnível, serve também como divisor de propriedade. Essas pequenas
muralhas deixam a região com aspecto harmonioso e singelo como um brinquedo de
criança.
AS MONTANHAS ABRAÇAM
Estamos no sétimo dia de caminhada por
uma paisagem surreal. Andamos por uma paisagem rodeada de montanhas por todos
os lados. Estamos dentro de um vale e ao girarmos o corpo 360º tenho a sensação
de estar sendo abraçada pelas montanhas com a lua pálida a fazer-nos companhia.
O cenário é inacreditavelmente lindo e paro algumas vezes para absorver a
imagem da perfeição parecendo que estou em uma fotografia. Paramos para um
descanso em DITUKLA
TIKLA a 4620 mt de altitude. Um ponto de parada dos
montanhistas, que por sinal, como são lindos!! Em seguida caminhamos por quase
três horas de subida punk entre e sobre pedras de variadas formas e tamanhos.
Não existe trilha definida. Cada um coloca o pé onde melhor acomodar, é para
cima e com dificuldade.
O lugar dá impressão que ali foi um
grande oceano, pois lembra o leito de um rio seco. Chegamos a 4.800 mt de
altitude com muita dificuldade. A Paula dá sinais que não está bem em função da
evolução da dor de barriga e sinto uma pressão na nuca que me castiga muito
também. Ao final da subida paramos para um descanso junto aos totens de pedras
em homenagem aos montanhistas que morreram no Himalaia.
Não há mais subida, mas a paisagem é
desértica e nos deixa exaustas. Andamos seis horas até chegar a LOBUCHE. Milagrosamente
Ade tem energia fluindo enquanto eu e Paula estamos destruídas. Uma fragilidade
acachapante, mas momentânea. Ade traz
Paula pelo braço que chora cansada e emocionada. Ela nos consola e nos passa
energia e está tão elétrica que medita enviando energia aos amigos. Eu, na
verdade, preciso de um comprimido de diamox ou unoprofen, pois o limite das
forças está relacionando com os sintomas da altitude. Sentamos e nos damos as mãos
em sinal de apoio. Ade está bem e ficamos ali emocionadas compartilhando
ternura e compaixão. Depois de algumas horas de descanso estou renovada e
pronta para um chá e para retornar a trilha novamente.
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