quarta-feira, 7 de novembro de 2012

As montanhas do Himalaya abraçam!


QUINTO DIA

 

Saímos cedo e é o quinto dia da expedição. Logo depois das 02h30min chegamos a PANGBOCHE a 4000 mt de altitude. Todos estão bem, mas vale um descanso para recuperar as forças. A subida é pela encosta da montanha e caminhar contornando-a mais ou menos pela metade dela sentindo o vale abaixo de nós é uma sensação indescritível. Do outro lado vemos altíssimas montanhas com suas  arvores imensas que como um manto de veludo verde em vários tons vai cobrindo sua face. A trilha é sinuosa e cheia de pedras irregulares e pela montanha pequenos arbustos vermelhos e minúsculas flores brancas a espalhar-se delicadamente como quem anuncia, minha fragilidade é a força da minha beleza. Por entre esse  gigantesco cannyon o rio  de águas ruidosas e brancas correm em curvas abertas seguindo o curso do seu destino com as pedras brancas e arredondadas a lhes fazer companhia. O som revela uma composição única e indecifrável levando para longe os mistérios do vale. Ao chegarmos a SUMARE, um pequeno lodge com jeito de abrigo rodeado de janelas com vidros que possibilitam clarear o ambiente com a luz do dia paramos para almoçar. A luz do dia que generosamente ilumina a todos os caminhantes que se aventuram pelo Himalaia funciona como um estimulante e renova as forças e retiram as teias de aranha da mente e ocupa todos os espaços com seu poder. Hoje comerei Rice fried com vegetais!

Usar o banheiro não é nenhuma experiência poética como andar pelas majestosas montanhas. Normalmente um casebre com um buraco no chão com uma pilha de capim seco para cobrir o que ali foi deixado. Dependendo do estado, demora-se um pouco para recuperar-se da experiência. Paula que o diga! Estava em um que era dividido em dois por uma parede de folha de zinco  e quem estava ao lado gemia horrores. Valha-me Deus do céu!

A partir daqui a paisagem muda significativamente. É como um divisor da natureza. A vegetação antes densa de arvores, transforma-se em montanhas arenosas com resistentes arbustos verde musgo que ainda  na ausência de fertilidade do solo fica florido na primavera  e suas flores são usadas para incenso e chá. À medida que andamos a trilha fica cada vez mais arenosa com pedras redondas como se ali fosse anteriormente um leito de rio. Chegamos em DINGBOCHE! Trata-se de um vilarejo com razoável  estrutura,energia solar, banho a gás e muitos outros lodges que criam um movimento de pessoas indo e vindo com seus sonhos e metas de trilheiros. Ficamos em Peac Ful e foi possível usar a internet a 20 rupees por minuto, razoável. Dividi um quarto com Ade e Paula ficou em um sozinha. Eu e ade combinamos bem e Paula dorme melhor assim. O lugar é aconchegante, mas como é difícil escolher o mesmo cardápio no café da manhã, almoço e jantar. Daqui é possível avistar Ama Dablam, Lotse, Taluche, Cholatse, Neyse isban Peak.

Os montes nevados abraçam o vilarejo como a todos nós que chegamos ávidos por sua beleza. Ficaremos dois dias para aclimatação, afinal eu e Paula estamos com dor de cabeça e pressão na nuca e a Paula esvai-se no banheiro o tempo todo. Faz um dia lindo com muita luz, ventos gelados e eu adoro isso! Aproveitamos para passear, fotografar, lavar roupa e beber chá de folhas frescas de hortelãs. Como em todos os lodges é no restaurante que todas as tribos se encontram. Montanhistas, guias, sherpas, turistas democraticamente compartilham o caloroso e aconchegante ambiente enquanto a noite cai gelada trazendo todos para o mesmo lugar.

Quase todos os lodges têm a mesma disposição e estrutura. São longos bancos de madeira atapetados e encostados na janela que contornam todo o ambiente. Normalmente as janelas são de vidros e revelam a paisagem lá fora e de qualquer lugar do restaurante é possível contemplar o quadro emoldurado da estonteante beleza que aflora como  poesia  . Á frente dos bancos ficam as mesas bem baixas e  envernizadas em tom claro. É sempre uma delicia repousar em um ambiente assim depois de um dia de caminhada, em especial comer uma comida quente e um tomar um chá que lembra um abraço de tão aconchegante. Estamos no 6º dia!

 

SEXTO DIA

 

O Dal Bhat ( guisado de lentilha com uma porção de arroz e batata) é meu prato predileto que além de saboroso repõe minhas energias rapidamente. Me sinto uma rainha neste lugar de tanta privação e nem por isso menos bonito que o lugar mais rico do mundo. A vida em Ding Boche segue em seu ritmo e dinâmica próprios dos lugarejos da região. Homens e mulheres a trabalhar na lavoura de subsistência e nos serviços de atendimento aos montanhistas. Aqui fica claro que não existe divisão de tarefas por gênero. Homens e mulheres estão envolvidos em atividades de manutenção, agricultura, serviços de cozinha ou ainda na preparação do excremento dos iaques que depois de amassados e modelados como discos de vinil são secos ao sol e guardados empilhados para serem utilizados como combustível. Energia alternativa para uma região que precisa encontrar meios de subsistência e sustentabilidade. Essa prática era muito mais comum, mas com a chegada da energia solar são utilizados mais em aquecedores. Todo o trabalho parece pesado com instrumentos ainda muito rudimentares, mas seguem levando suas vidas e significando por meios de suas culturas e crenças.

Um dos melhores momentos do dia foi ouvir o RAM demonstrando sua farmácia para nós. Ele tinha de tudo e demonstrava a aplicabilidade de cada um por meio de mímicas e isso nos fazia cair na gargalhada. O apelidamos de best montain doctor. Retornamos ao restaurante para um delicioso chá e esperamos a noite chegar. Quando saímos para o quarto ficamos impactadas com a beleza do céu na noite de todas estrelas. Ficamos olhando o céu por muito tempo sem acreditar que um mesmo  céu podia ser tão lindo aqui. Ele se apresentava brilhante como pirilampos e indiferente  a quem se dispusesse a olhar para cima e ser tocado pela mágica que a noite no Himalaia reserva . Era uma abóboda piscando  milhares de milhares de estrelas! Não sabia que cabia tanta estrela a brilhar ao mesmo tempo no único céu que é tanto céu de uma só vez até aquele dia. Todas muitas juntas como se falassem que a união do brilho faz o céu intenso e vivo sem que pudéssemos definir quem era maior ou mais brilhante. Ficamos assim olhando para o céu e girando sobre o próprio eixo até que frio nos dominasse. Entramos silenciosas como se fosse possível reter nos olhos a beleza do céu no seu firmamento misterioso e mágico.

 

 

 

TRABALHO DE ARTÍFICE

 

As propriedades e as lavouras são cercadas por baixos muros de pedras. Eles são largos e acomodados sem nenhum rejunte. É um perfeito trabalho de artífice. São simétricos e padronizados, meticulosamente encaixados para ficarem firmes e além de proteger o solo em função do desnível, serve também como divisor de propriedade. Essas pequenas muralhas deixam a região com aspecto harmonioso e singelo como um brinquedo de criança.

 

 

AS MONTANHAS ABRAÇAM

 

Estamos no sétimo dia de caminhada por uma paisagem surreal. Andamos por uma paisagem rodeada de montanhas por todos os lados. Estamos dentro de um vale e ao girarmos o corpo 360º tenho a sensação de estar sendo abraçada pelas montanhas com a lua pálida a fazer-nos companhia. O cenário é inacreditavelmente lindo e paro algumas vezes para absorver a imagem da perfeição parecendo que estou em uma fotografia. Paramos para um descanso em DITUKLA TIKLA a 4620 mt de altitude. Um ponto de parada dos montanhistas, que por sinal, como são lindos!! Em seguida caminhamos por quase três horas de subida punk entre e sobre pedras de variadas formas e tamanhos. Não existe trilha definida. Cada um coloca o pé onde melhor acomodar, é para cima e com dificuldade.

O lugar dá impressão que ali foi um grande oceano, pois lembra o leito de um rio seco. Chegamos a 4.800 mt de altitude com muita dificuldade. A Paula dá sinais que não está bem em função da evolução da dor de barriga e sinto uma pressão na nuca que me castiga muito também. Ao final da subida paramos para um descanso junto aos totens de pedras em homenagem aos montanhistas que morreram no Himalaia.

Não há mais subida, mas a paisagem é desértica e nos deixa exaustas. Andamos seis horas até chegar a LOBUCHE. Milagrosamente Ade tem energia fluindo enquanto eu e Paula estamos destruídas. Uma fragilidade acachapante, mas momentânea.  Ade traz Paula pelo braço que chora cansada e emocionada. Ela nos consola e nos passa energia e está tão elétrica que medita enviando energia aos amigos. Eu, na verdade, preciso de um comprimido de diamox ou unoprofen, pois o limite das forças está relacionando com os sintomas da altitude. Sentamos e nos damos as mãos em sinal de apoio. Ade está bem e ficamos ali emocionadas compartilhando ternura e compaixão. Depois de algumas horas de descanso estou renovada e pronta para um chá e para retornar a trilha novamente.

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