O GIGANTE
VOO EM UM MINÚSCULO AVIÃO
No
aeroporto, uma confusão só! Muitos turistas na fila e todos falando ao mesmo
tempo. Somos todos revistados e finalmente embarcamos num pequeníssimo avião que
deixa a maioria das pessoas inseguras e com olhos bem arregalados. A comissária
aparece com um pequeno cesto de vime contendo algodão e balas a oferecer aos
passageiros, É tão inusitado que parece uma brincadeira. Todas as mochilas são
carregadas no colo dos passageiros fazendo o lugar parecer mais apertado e
menor ainda.
O vôo é
fantástico!! Sobrevoar as montanhas em um pequeno avião possibilita vislumbrar
com mais liberdade e ampliação da visão o cenário magnífico de montanhas,
cachoeiras, vales e povoados a descortinar abaixo e á frente de nós. Impressiono-me
com a quantidade de pessoas morando nas montanhas. Por quase toda a extensão
pode se enxergar casinhas isoladas ou pequenas comunidades recolhidas nas
encostas das montanhas e entre cachoeiras e os altos picos. Não faço idéia da
forma como vivem e como chegaram até ali, considerando não haver quase nenhuma
estrada a ligar as casas a algum lugar. Parece uma vida primitiva e cheia de
mistérios na minha lógica urbana e limitada. Eu tenho muito a aprender aqui.
O pouso no
aeroporto de Lukla é impressionante. Eu estava preparada para o acontecimento,
pois, havia lido alguns relatos referentes ao pouso nesta pista considerada uma
das mais perigosas do mundo. Ela é curta e por estar chovendo tudo se torna
mais emocionante e impactante referente ao modelo de segurança que temos. Mas
não tenho nenhum medo ou receio identificado. Um pequeno amontoado de pessoas
esperam do lado de fora do portão os vôos que chegam trazendo os turistas e com
eles a temporada de trabalho. A maioria é constituída de gente muito jovem e
simples que serão os carregadores das expedições que começam ali. Fico
imaginando o que fazem no resto do tempo quando chega o impetuoso inverno. Sua
sobrevivência está garantida ali, com o peso de malas, mochilas e sonhos de uma
gente que eles poucos sabem da cultura, política ou economia, mas que se interessa
por seu país e a possibilidade de estar em contato com aquela que é para eles
motivo de orgulho e deferência: As montanhas do Himalaia!. Dirigimo-nos a um
lodge, nossa primeira parada para tomarmos chá e usarmos banheiro. Surge o
contorno da viagem com as montanhas ao fundo, o vento frio a beijar nosso
rosto, as mochilas ajustadas e o coração a palpitar de ansiedade. Era o nosso
primeiro dia de trilha!
Vôo de
Lukla
Vista do avião
PRIMEIRO
DIA DE TRILHA
Assim
começamos passando pelas diversas comunidades cheia de cores, crianças a correr
e sorrir timidamente a cada caminhante que passava. Vejo em seus olhos
cumplicidade ainda que mudamos suas rotinas e preenchemos sua imaginação com
nossos tipos tão diferentes . Muitas mulheres, jovens e idosas indo e vindo
para lavoura ou algum tipo de trabalho, carregando grandes cestos com tiras
sustentados pela testa.
O caminho é lindo, e tenho certeza que vou
repetir essa expressão muitas vezes. Por toda a trilha brotam imensas
cachoeiras do alto da montanha fazendo tudo se aquietar em volta. Caminhamos
ao som das águas do rio caudaloso que corta a região e nos lembra um rio de
leite espumoso. Vamos encontrando os símbolos e as marcas da religiosidade
desse povo que manifesta suas crenças em bandeirinhas coloridas de orações
budistas tibetanas, mantras esculpidos nas pedras, sinos a balançarem-se aos
ventos, incensários, totens e suaves canções. As bandeirinhas estão por todos
os lados e faz parte do ritual de religiosidade
do povo. Ao colocá-las penduradas em dias específicos crêem que cada vez que o
vento as toca, nossas forças interiores são fortalecidas e ficamos protegidos
de todo mal. È gostoso olhar a dançar ao vento com sua beleza e crença que
combinam com o lugar.
Paramos
para almoçar e seguimos o caminho com trilhas, pedras e mais estonteante
beleza. Lembro-me que hoje é o aniversário do Rubens, pessoa querida que tenho
muita consideração e rezo por ele e por seus sonhos. Penso, ele vai amar cada
centímetro desse lugar. Como é inspirador orar e desejar luz para alguém
estando em contato com a paz que emana do ambiente.
Chegamos ao
lodge que vamos passar a noite. MONJO é nosso abrigo. Deixamos nossas
mochilas e estávamos fatigadas e nos sentindo fora de forma. Pedimos um chá e
nossos corações vão desacelerando á medida que sentadas na varanda vamos sendo
abraçadas pelas montanhas que nos acolhe com sua beleza sem par. É um momento
mágico. Silenciamos-nos para sorver todo o esplendor do dia que se vai e deixa
as sombras e a luz a brincar com nossos olhos sedentos dessa harmonia. No ipod
da Ade toca uma música instrumental que parece que foi escolhida para o
momento. Fico emocionada com a paz que nos invade. Oro por tudo e por todos que
amo. Grato, meu espírito reconhece seu alimento e fico serena e confiante diante
do que nos aguarda à frente.
Durmo muito
cedo e meu relógio biológico me desperta ás 02h00min e impõe suas regras e
rotinas consolidada ao longo da vida e, assim, resignada não consigo mais
dormir. Reflito que nem sempre temos domínio sobre nós, sobre o nosso corpo e
esse aprendizado é necessário para criarmos força e mapearmos as mudanças que
se fazem necessárias em nossa vida. Quero muito continuar na cama, mas resolvo
levantar e ouvir música e sentir minhas emoções pulsando e tentando encontrar
suas razoes e lógicas. Não sinto nenhum cansaço, só a sensação internalizada que
o dia vai alto. Escrevo no diário ouvindo “o dedo invisível do tempo modelando
nosso destino”. Havia solicitado aos meus amigos que escolhessem suas melhores
musicas para eu ouvir durante a trilha e lembrar-me deles por meio de suas
canções prediletas. Hoje sei que foi uma idéia maravilhosa. Recebi muitos
emails e cada um queria definir sua canção e fazer parte do sonho de uma amiga
louca, aventureira que ama caminhar e ancora suas idéias e ideais na
possibilidade de não viver em vão o dom de viver e amar e que não desiste dos
seus sonhos, ainda que loucos para alguns. Os amigos que não conseguiram mandar
a musica por alguma razão, escolhi aquela que me faz lembrar deles. Oro muito
por Nana e Malu. Acho que meu sonho maior é para sejam felizes! Levanto-me e
fico horas a contemplar a paisagem que muda das sombras para a luz do sol que
nasce generoso e aquece o frio que penetrava minhas várias camadas de roupas
que não foi capaz de me demover da magia de contemplar aquele lugar.
Logo pela manhã e após um café frugal, onde
não consigo gostar de quase nada servido, seguimos nosso caminho por dentro do
vilarejo.
Vemos as crianças
indo para escola impecavelmente alinhadas. O vestuário destoa de todo o resto.
Estão no melhor estilo inglês de uniforme escolar. Meninas de saia drapeada,
camisa comprida, meia três quarto e pulôver combinando. Meninos com camisa
social e gravata. Estamos na região do Rio Koshi e quase todas as mulheres usam
piercing no nariz e todas as crianças brincam sujas, com os rostos queimados
pelo frio mas, com a alegria típica de quem é livre. Algumas mulheres parecem muito
ocidentalizadas, mas a maioria aparece com seus mantos e vestidos colorindo a
paisagem enquanto cuidam de crianças, animais e afazeres domésticos.
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