quarta-feira, 7 de novembro de 2012


O GIGANTE VOO EM UM MINÚSCULO AVIÃO

 

No aeroporto, uma confusão só! Muitos turistas na fila e todos falando ao mesmo tempo. Somos todos revistados e finalmente embarcamos num pequeníssimo avião que deixa a maioria das pessoas inseguras e com olhos bem arregalados. A comissária aparece com um pequeno cesto de vime contendo algodão e balas a oferecer aos passageiros, É tão inusitado que parece uma brincadeira. Todas as mochilas são carregadas no colo dos passageiros fazendo o lugar parecer mais apertado e menor ainda.

O vôo é fantástico!! Sobrevoar as montanhas em um pequeno avião possibilita vislumbrar com mais liberdade e ampliação da visão o cenário magnífico de montanhas, cachoeiras, vales e povoados a descortinar abaixo e á frente de nós. Impressiono-me com a quantidade de pessoas morando nas montanhas. Por quase toda a extensão pode se enxergar casinhas isoladas ou pequenas comunidades recolhidas nas encostas das montanhas e entre cachoeiras e os altos picos. Não faço idéia da forma como vivem e como chegaram até ali, considerando não haver quase nenhuma estrada a ligar as casas a algum lugar. Parece uma vida primitiva e cheia de mistérios na minha lógica urbana e limitada. Eu tenho muito a aprender aqui.

O pouso no aeroporto de Lukla é impressionante. Eu estava preparada para o acontecimento, pois, havia lido alguns relatos referentes ao pouso nesta pista considerada uma das mais perigosas do mundo. Ela é curta e por estar chovendo tudo se torna mais emocionante e impactante referente ao modelo de segurança que temos. Mas não tenho nenhum medo ou receio identificado. Um pequeno amontoado de pessoas esperam do lado de fora do portão os vôos que chegam trazendo os turistas e com eles a temporada de trabalho. A maioria é constituída de gente muito jovem e simples que serão os carregadores das expedições que começam ali. Fico imaginando o que fazem no resto do tempo quando chega o impetuoso inverno. Sua sobrevivência está garantida ali, com o peso de malas, mochilas e sonhos de uma gente que eles poucos sabem da cultura, política ou economia, mas que se interessa por seu país e a possibilidade de estar em contato com aquela que é para eles motivo de orgulho e deferência: As montanhas do Himalaia!. Dirigimo-nos a um lodge, nossa primeira parada para tomarmos chá e usarmos banheiro. Surge o contorno da viagem com as montanhas ao fundo, o vento frio a beijar nosso rosto, as mochilas ajustadas e o coração a palpitar de ansiedade. Era o nosso primeiro dia de trilha!

 

      

 

Vôo de Lukla                                                  Vista do avião

 

PRIMEIRO DIA DE TRILHA

 

 

Assim começamos passando pelas diversas comunidades cheia de cores, crianças a correr e sorrir timidamente a cada caminhante que passava. Vejo em seus olhos cumplicidade ainda que mudamos suas rotinas e preenchemos sua imaginação com nossos tipos tão diferentes . Muitas mulheres, jovens e idosas indo e vindo para lavoura ou algum tipo de trabalho, carregando grandes cestos com tiras sustentados pela testa.

 O caminho é lindo, e tenho certeza que vou repetir essa expressão muitas vezes. Por toda a trilha brotam imensas cachoeiras do alto da montanha fazendo tudo se aquietar em volta. Caminhamos ao som das águas do rio caudaloso que corta a região e nos lembra um rio de leite espumoso. Vamos encontrando os símbolos e as marcas da religiosidade desse povo que manifesta suas crenças em bandeirinhas coloridas de orações budistas tibetanas, mantras esculpidos nas pedras, sinos a balançarem-se aos ventos, incensários, totens e suaves canções. As bandeirinhas estão por todos os  lados e faz parte do ritual de religiosidade do povo. Ao colocá-las penduradas em dias específicos crêem que cada vez que o vento as toca, nossas forças interiores são fortalecidas e ficamos protegidos de todo mal. È gostoso olhar a dançar ao vento com sua beleza e crença que combinam com o lugar.

Paramos para almoçar e seguimos o caminho com trilhas, pedras e mais estonteante beleza. Lembro-me que hoje é o aniversário do Rubens, pessoa querida que tenho muita consideração e rezo por ele e por seus sonhos. Penso, ele vai amar cada centímetro desse lugar. Como é inspirador orar e desejar luz para alguém estando em contato com a paz que emana do ambiente.

Chegamos ao lodge que vamos passar a noite. MONJO é nosso abrigo. Deixamos nossas mochilas e estávamos fatigadas e nos sentindo fora de forma. Pedimos um chá e nossos corações vão desacelerando á medida que sentadas na varanda vamos sendo abraçadas pelas montanhas que nos acolhe com sua beleza sem par. É um momento mágico. Silenciamos-nos para sorver todo o esplendor do dia que se vai e deixa as sombras e a luz a brincar com nossos olhos sedentos dessa harmonia. No ipod da Ade toca uma música instrumental que parece que foi escolhida para o momento. Fico emocionada com a paz que nos invade. Oro por tudo e por todos que amo. Grato, meu espírito reconhece seu alimento e fico serena e confiante diante do que nos aguarda à frente.

Durmo muito cedo e meu relógio biológico me desperta ás 02h00min e impõe suas regras e rotinas consolidada ao longo da vida e, assim, resignada não consigo mais dormir. Reflito que nem sempre temos domínio sobre nós, sobre o nosso corpo e esse aprendizado é necessário para criarmos força e mapearmos as mudanças que se fazem necessárias em nossa vida. Quero muito continuar na cama, mas resolvo levantar e ouvir música e sentir minhas emoções pulsando e tentando encontrar suas razoes e lógicas. Não sinto nenhum cansaço, só a sensação internalizada que o dia vai alto. Escrevo no diário ouvindo “o dedo invisível do tempo modelando nosso destino”. Havia solicitado aos meus amigos que escolhessem suas melhores musicas para eu ouvir durante a trilha e lembrar-me deles por meio de suas canções prediletas. Hoje sei que foi uma idéia maravilhosa. Recebi muitos emails e cada um queria definir sua canção e fazer parte do sonho de uma amiga louca, aventureira que ama caminhar e ancora suas idéias e ideais na possibilidade de não viver em vão o dom de viver e amar e que não desiste dos seus sonhos, ainda que loucos para alguns. Os amigos que não conseguiram mandar a musica por alguma razão, escolhi aquela que me faz lembrar deles. Oro muito por Nana e Malu. Acho que meu sonho maior é para sejam felizes! Levanto-me e fico horas a contemplar a paisagem que muda das sombras para a luz do sol que nasce generoso e aquece o frio que penetrava minhas várias camadas de roupas que não foi capaz de me demover da magia de contemplar aquele  lugar.

 Logo pela manhã e após um café frugal, onde não consigo gostar de quase nada servido, seguimos nosso caminho por dentro do vilarejo.

Vemos as crianças indo para escola impecavelmente alinhadas. O vestuário destoa de todo o resto. Estão no melhor estilo inglês de uniforme escolar. Meninas de saia drapeada, camisa comprida, meia três quarto e pulôver combinando. Meninos com camisa social e gravata. Estamos na região do Rio Koshi e quase todas as mulheres usam piercing no nariz e todas as crianças brincam sujas, com os rostos queimados pelo frio mas, com a alegria típica de quem é  livre. Algumas mulheres parecem muito ocidentalizadas, mas a maioria aparece com seus mantos e vestidos colorindo a paisagem enquanto cuidam de crianças, animais e afazeres domésticos.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário