AS MONTANHAS NOS APROXIMAM DA
DIVINDADE
Seguimos para LUSA, um caminho
pela encosta das montanhas que eram adornadas por minúsculas flores e um rio de
águas fortes e brancas a correr abaixo de nós. Nem parece que é real. É como se
estivéssemos dentro do sonho, talvez a alma da minha’alma sonhando. Passamos por
lagos sagrados de Gokyo com montanhas cheias de vegetação colorida de vermelho
e amarelo. Cachoeiras imensas lambiam a montanha e alimentavam o rio turbulento.
Bosques apareciam ao som das muitas águas que faziam nossos olhos olharem para
o interior e buscarem tão somente o que era essencial. Não importa o caminho que buscamos trilhar se
ele não nos leva a Deus, seja lá qual seja nosso conceito de divindade, ao
final não teremos a sensação da vitoria
se o terminarmos da mesma forma que começamos . Tenho claro, como as águas
cristalinas, que a natureza que todo percurso precisa ter, é a da busca pelo
sentido da vida. Isso implica não nos concentrarmos em nossos desejos e
necessidades materiais, mas ultrapassarmos nossas fronteiras e olharmos os
desafios como escada necessária ao crescimento visando a generosidade, o amor,
aprendizagem do perdão, a solidariedade e o conhecimento da vontade de Deus e nosso percurso não terá sido em vão e nem nos
perderemos em nós mesmo.
As montanhas perfumadas me encantam e preciso
parar em muitos momentos para dizer-lhes o que estava sentido, para ser grata,
para deixar aos seus pés fragmentos de novos sonhos, para sorver a doçura do
seu perfume que me inebriava os pensamentos. Caminhava em silencio ouvindo o
sussurro dos ventos, sentindo a luz do sol a penetrar na pele. Pensava em tanta
gente querida e desejava-lhes a paz que estava sentindo. Alguém já perguntou a
alguém o que é felicidade? Eu me habilito a responder, é estar no caminho das
montanhas perfumadas agradecendo a Deus o presente da vida. E o resto? É resto!
Pedaços de história. RAM entende que preciso parar muitas vezes e fica ao longe
sem me chamar para retornar, sem conversar, sem interromper, respeitando meus
momentos de plenitude e realismo mágico!
Andamos o dia todo e esperávamos
chegar a Namche Bazar e encontrar a Paula, mas não foi possível. A última hora
de trilha foi extremamente desgastante. Os pés praticamente não saíam da
vertical . O dia anterior tinha deixado suas marcas e nossas forças estavam
exauridas e nos impunha limites. Pernoitamos em MONG LA . Um
lugarejo no alto da montanha e mesmo com muita neblina cobrindo toda a região
havia muitas crianças brincando. Tentamos saber notícias de Paula e não
conseguimos, ela devia estar em Namche bazar e não estava. Pirei!! Me senti
péssima e angustiada. Como ela estava se sentindo? Onde ela estava ? Vi aflorar
todo meu senso de proteção e cuidado exacerbado. Como pudemos deixá-la sozinha?
Lembrei-me da Paula nos fazendo ri ao dizer que tava cagando e andando. Como
era no sentido literal rimos muito e agora não tínhamos noticias de nossa
amiga. Minha preocupação exercia pressão no RAM que dizia que ela devia ter ligado
conforme combinado. Eu o deixava pior com meu aparente tormento. Ade disse que
sentia que ela estava bem, mas isso não era suficiente para acalmar meu coração
e ajoelhei-me à noite para orar pela segurança e saúde dela. Decidimos que não
pararíamos para conhecer um mosteiro e a região famosa pelas histórias de Iak e
seguimos para achá-la em outro lodge. Depois de uma noite mal dormida seguimos o
caminho de retorno e ainda na metade dele soubemos que Paula estava bem e que
havia estado em um lodge perto. Que alívio!! Pudemos observar a natureza com o
coração esvaziado da angustia que nos assolava anteriormente. A estrada era
mais larga e florida e muito iluminada
pelo sol. Parava constantemente para apreciar o jogo de luz e sombras que eram
projetadas pelo sol e pelas montanhas e sempre o perfume do doce incenso que
penetrava meus sentidos. RAM dizia: She will marry the montains! I Will!
ONDE DEUS
POSSA ME OUVIR
Invade-me
uma estranha sensação de que não voltaria mais ali e começa o caminho de
retorno com sabor de despedida. Precisava reter ao máximo a imagem do
gigantismo mágico do Himalaia. Muitos trekkers fazendo o caminho inverso
entremeavam a sensação de adeus. Queria eternizar as monumentais montanhas e
seu perfume em mim.
Sempre era
recorrente a canção que vinha á minha
mente, “ Onde Deus possa me ouvir” de Vander Lee. Néo me encaminhou esta canção
e quando ouvi pela primeira vez chorei de emoção. Eu o amo com amor eterno e
nos identificamos sem procurar entender nossa cumplicidade e confiança. Ele me
sugeriu a versão com Gal Costa que também é linda, mas para mim Vander Lee teve
inspiração divina ao compor e cantar essa canção. Por muitas vezes as meninas
também começaram a cantarolar sem nunca ter ouvido antes, de tanto que cantei
na trilha. Para mim, foi a canção do Everest...Amo mais ainda Neo !
Que
maravilha que começamos a trilha antes da alta temporada. Congestionamento na
trilha pode tirar em muito a mágica do lugar. Bom mesmo é só priorizar passagem
para os iaques, do contrário é difícil manter o pensamento meditativo
esbarrando em caminhantes o tempo todo.
Depois de
muitos dias com várias camadas de roupas podíamos agora ficar apenas com uma
camada só. Kyangjuma ficará marcado como o local que aliviou nossos corações,
pois aqui tivemos noticia da nossa amiga e apaixonada Paula.
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