quarta-feira, 7 de novembro de 2012

As montanhas nos aproximam de Deus


AS MONTANHAS NOS APROXIMAM DA DIVINDADE

 

Seguimos para LUSA, um caminho pela encosta das montanhas que eram adornadas por minúsculas flores e um rio de águas fortes e brancas a correr abaixo de nós. Nem parece que é real. É como se estivéssemos dentro do sonho, talvez a alma da minha’alma sonhando. Passamos por lagos sagrados de Gokyo com montanhas cheias de vegetação colorida de vermelho e amarelo. Cachoeiras imensas lambiam a montanha e alimentavam o rio turbulento. Bosques apareciam ao som das muitas águas que faziam nossos olhos olharem para o interior e buscarem tão somente o que era essencial.  Não importa o caminho que buscamos trilhar se ele não nos leva a Deus, seja lá qual seja nosso conceito de divindade, ao final não teremos  a sensação da vitoria se o terminarmos da mesma forma que começamos . Tenho claro, como as águas cristalinas, que a natureza que todo percurso precisa ter, é a da busca pelo sentido da vida. Isso implica não nos concentrarmos em nossos desejos e necessidades materiais, mas ultrapassarmos nossas fronteiras e olharmos os desafios como escada necessária ao crescimento visando a generosidade, o amor, aprendizagem do perdão, a solidariedade e o conhecimento da vontade de Deus e  nosso percurso não terá sido em vão e nem nos perderemos em nós mesmo.

 As montanhas perfumadas me encantam e preciso parar em muitos momentos para dizer-lhes o que estava sentido, para ser grata, para deixar aos seus pés fragmentos de novos sonhos, para sorver a doçura do seu perfume que me inebriava os pensamentos. Caminhava em silencio ouvindo o sussurro dos ventos, sentindo a luz do sol a penetrar na pele. Pensava em tanta gente querida e desejava-lhes a paz que estava sentindo. Alguém já perguntou a alguém o que é felicidade? Eu me habilito a responder, é estar no caminho das montanhas perfumadas agradecendo a Deus o presente da vida. E o resto? É resto! Pedaços de história. RAM entende que preciso parar muitas vezes e fica ao longe sem me chamar para retornar, sem conversar, sem interromper, respeitando meus momentos de plenitude e realismo mágico!

Andamos o dia todo e esperávamos chegar a Namche Bazar e encontrar a Paula, mas não foi possível. A última hora de trilha foi extremamente desgastante. Os pés praticamente não saíam da vertical . O dia anterior tinha deixado suas marcas e nossas forças estavam exauridas e nos impunha limites. Pernoitamos em MONG LA . Um lugarejo no alto da montanha e mesmo com muita neblina cobrindo toda a região havia muitas crianças brincando. Tentamos saber notícias de Paula e não conseguimos, ela devia estar em Namche bazar e não estava. Pirei!! Me senti péssima e angustiada. Como ela estava se sentindo? Onde ela estava ? Vi aflorar todo meu senso de proteção e cuidado exacerbado. Como pudemos deixá-la sozinha? Lembrei-me da Paula nos fazendo ri ao dizer que tava cagando e andando. Como era no sentido literal rimos muito e agora não tínhamos noticias de nossa amiga. Minha preocupação exercia pressão no RAM que dizia que ela devia ter ligado conforme combinado. Eu o deixava pior com meu aparente tormento. Ade disse que sentia que ela estava bem, mas isso não era suficiente para acalmar meu coração e ajoelhei-me à noite para orar pela segurança e saúde dela. Decidimos que não pararíamos para conhecer um mosteiro e a região famosa pelas histórias de Iak e seguimos para achá-la em outro lodge. Depois de uma noite mal dormida seguimos o caminho de retorno e ainda na metade dele soubemos que Paula estava bem e que havia estado em um lodge perto. Que alívio!! Pudemos observar a natureza com o coração esvaziado da angustia que nos assolava anteriormente. A estrada era mais larga e  florida e muito iluminada pelo sol. Parava constantemente para apreciar o jogo de luz e sombras que eram projetadas pelo sol e pelas montanhas e sempre o perfume do doce incenso que penetrava meus sentidos. RAM dizia: She will marry the montains! I Will!

 

ONDE DEUS POSSA ME OUVIR

 

Invade-me uma estranha sensação de que não voltaria mais ali e começa o caminho de retorno com sabor de despedida. Precisava reter ao máximo a imagem do gigantismo mágico do Himalaia. Muitos trekkers fazendo o caminho inverso entremeavam a sensação de adeus. Queria eternizar as monumentais montanhas e seu perfume em mim.

Sempre era recorrente  a canção que vinha á minha mente, “ Onde Deus possa me ouvir” de Vander Lee. Néo me encaminhou esta canção e quando ouvi pela primeira vez chorei de emoção. Eu o amo com amor eterno e nos identificamos sem procurar entender nossa cumplicidade e confiança. Ele me sugeriu a versão com Gal Costa que também é linda, mas para mim Vander Lee teve inspiração divina ao compor e cantar essa canção. Por muitas vezes as meninas também começaram a cantarolar sem nunca ter ouvido antes, de tanto que cantei na trilha. Para mim, foi a canção do Everest...Amo mais ainda Neo !

Que maravilha que começamos a trilha antes da alta temporada. Congestionamento na trilha pode tirar em muito a mágica do lugar. Bom mesmo é só priorizar passagem para os iaques, do contrário é difícil manter o pensamento meditativo esbarrando em caminhantes o tempo todo.

Depois de muitos dias com várias camadas de roupas podíamos agora ficar apenas com uma camada só. Kyangjuma ficará marcado como o local que aliviou nossos corações, pois aqui tivemos noticia da nossa amiga e apaixonada Paula.

 

 

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