quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Diário Acampamento Base do Everest


NAMCHE BAZAR

 

Seguimos caminho para Namche Bazar. Andamos por quatro horas e sempre subindo. O caminho é mágico com o rio sendo alimentado pelas imensas cachoeiras leitosas que descem das gigantescas montanhas. Almoçamos em PHAKDING e após um chá, seguimos confiantes com o lindo dia a nos inspirar. Vimos o encontro do rio Tibete com o rio Everest. Águas sagradas que se fundem e nos ensinam que as diferenças são imposições dos homens, que na natureza o padrão é a interatividade e a predominância da harmonia sem exclusão. As águas se misturam e seguem o contorno fácil do seu leito tornando o lugar um cenário de intocável beleza.

Ao chegarmos a Namche Bazar ficamos parados, antes de entrar no vilarejo, olhando o encantamento do lugar. Namche está escondida entre dois cumes e no meio dos  picos gigantes do Khumbu. As casas têm o mesmo padrão arquitetônico e é de um colorido harmonioso e singelo que compõe um cenário cuidadoso e acolhedor. O lugar tem boa estrutura e dispõe de lojas com uma variedade enorme de produtos para montanhismo, farmácia, mercado, internet, telefonia dentre outros serviços. Aqui ficaremos dois dias de aclimatação. Nosso hotel Tibet. é aconchegante, organizado, bem estruturado e com um padrão de higiene superior ao que tínhamos usufruído na pousada anterior.  Fomos recepcionados com um chá de hortelã e um saboroso almoço. Um bom lugar para passarmos dois dias e prepararmos nossa aclimatação à altitude e evitarmos o mal de altitude. Namche está a 3450 MT de altitude e é o abrigo e parada de quase todos os mochileiros que se aventuram na inusitada caminhada rumo ás montanhas do Himalaia.

Andamos pela cidade para conhecer um pequeno mosteiro que com um monge á porta nos convida para tirarmos os sapatos, entrarmos e deixarmos um donativo se quisermos. Um ambiente perfumado de incenso com coloridos desenhos a decorar o interior com suas simbologias e mistérios. Depois da visita vamos ao museu da região que retrata a cultura sherpa. O tempo fechou e não pudemos subir uma trilha que nos daria a visão dos montes Ama Dablam, Nupste e Lhotse, mas, tudo bem, tudo era lindo assim mesmo. Retomamos o passo para o hotel e por cem Rupees tomamos um revigorante banho. Aqui percebemos que tudo tem os mesmo ingredientes e os mesmos sabores. A comida se constitui em um prato individual em que você escolhe arroz com legumes ou massas com legumes. E os legumes são sempre os mesmos. Não recomendo comer carne, pois na região não se mata animais e os que são consumidos vêem de Katmandu e, portanto, são carregados em lombos de animais ou pessoas por quatro dias de viagem sem refrigeração.

 

 

CULTURA SHERPA

 

Aqui vale uma pausa para o aprendizado sobre a cultura sherpa, considerando sua importância para a região e a força da identidade e da tradição que permitiu o avanço das expedições e a conquista do topo das montanhas pelo conhecimento adquirido e o seu senso de religiosidade que contribuiu para preservar o lugar. Os sherpas são conhecidos em toda a região como um grupo étnico que vive nas montanhas, mas que se miscigenou na capital e nos povoados mais baixos. Os sherpas tiveram papel fundamental na conquista do Everest em função do físico acostumado a baixas temperaturas e altas altitudes e a uma vida de trabalho árduo em condições de extrema vulnerabilidade e limitados recursos. A influencia na alimentação é muito significativa e eu sou grata pois, a comida que mais me adaptei foi um quisado de lentilha com uma porção de arroz e batata, chamada Dal Bha, típica da cultura sherpa.

 

TUDO É UMA PREPARAÇÃO!

 

 

Voltando para Namche Bazar, ficamos a descansar no gostoso ambiente do hotel que serve de sala e também de restaurante a conversar sobre como tudo começou. Contei para as meninas sobre minha experiência espiritual na Patagônia e que elas estavam comigo e na época eu não as conhecia ainda o suficiente para compartilhar algo tão especial para mim. Lembrei que eu cheguei ao abrigo na patagônia Chilena e procurava por uma brasileira que havia conhecido em Calafate e havia pedido a recepcionista que me colocasse no quarto com brasileiros para estar com ela novamente, pois assim foi como combinamos.Mas fui colocada erradamente com elas. Como não existe acaso sem propósito e não podia saber disso naquele momento reclamei, mas nada adiantou e eu também estava cansada para questionar, afinal só ficaria no abrigo de Torres Del Paine uma vez. Assim, ao conhecê-las estava me sentido só e falei um pouco disso e imediatamente  Paula me convidou a seguir com elas e depois eu retornaria para fazer a trilha da torre e completar o circuito “W”. Era trabalhoso para mim, mas senti vontade em acompanhá-las. Paula disse-me que se surpreendeu em me convidar para acompanhá-las tão rapidamente ao que Ade concordou pois considera a Paula mais reservada. Disseram-me ainda que eu havia sido importante para transmitir a força que elas precisavam e elas supriram minha solidão momentânea. Esse foi o começo de nossos laços fraternos. Ficamos amigas e ao final do circuito W estávamos unidas como amigas que se reencontram e nossa  despedida foi  com pesar. Contei-lhes que na trilha havia tido uma experiência espiritual muito forte e não tinha contado a elas na época por não saber como absorveria isso e eu mesma precisava processar a vivencia dentro de mim. Normalmente sou muito alegre na trilha e isso se traduz em canções que vou cantarolando, preces que me vêem à mente e não sinto falta de nada. Sinto-me completa em contato com a natureza. No entanto, um dia estava amargurada, com pesar no coração. Tinha a sensação que algo muito ruim havia acontecido com Nana e Malu. Perdi em muito a leveza que o contato com a natureza proporciona e tudo eram sombras e sequer tinha vontade de conversar. Então, de forma inesperada ouvi uma voz interna a falar: Quésia, quem cuida de tudo sou eu. Elas não estão bem em função do seu cuidado, mas do meu! Eu sei e sabia que Deus fala e ouve em nossas orações. Tinha convivido em um lar onde experiência com Deus era compartilhada diariamente. Mas, eu estava ali, me sentindo egoísta por deixar tudo para trás e viver o que queria e isso culturalmente não é comum e pesou em mim sem que eu me desse conta. Olhei para os lados e tudo estava bem e as meninas não demonstraram ter ouvido aquela voz que se repetiu: Eu tenho o controle e as amo também! Traduzindo, sua preocupação é inútil e desnecessária. Sou eu também quem cuido de você! Imediatamente me veio á mente uma linda canção que ouvia na igreja dos meus pais quando adolescente e era cantada por um amigo muito especial e que ainda me encho de culpa pela forma pela qual nos afastamos, mas isso é outra história. “Sei que a canção veio em rima, verso e melodia e comecei a cantar, “...Não tenha sobre ti, um só cuidado qualquer que seja, pois um somente um seria muito para ti. “É meu somente meu todo o trabalho e teu trabalho é descansar em mim...” Minha emoção era tamanha que cantava agradecendo a Deus por me mostrar a minha arrogância em achar que tenho o controle sobre qualquer coisa. Estava costumada a zelar e a cuidar de todos à minha volta que achava isso que me tornava potente para preservar alguém e livrá-la de algum perigo apenas pelo fato de estar perto. Mas somos apenas instrumento que é usado no momento da providencia de Deus e não detemos poderes nenhum. A paz irradiou meu coração, mas ainda questionava se não era um mecanismo da minha cabeça para suportar o desconforto da situação. Ao final da trilha, checando os emails das meninas pude constatar que não. É preciso relatar este acontecimento aqui, pois não ousaria ficar mais tempo ainda longe de casa sem superar essa limitação internalizada que me impediria de viver ampla e intensamente as lições do Everest.

Não estávamos naquele continente, outra vez juntas, por acaso. Disso tínhamos certeza!

Eu havia programado minha viagem para Bolívia com ajuda de um amigo que esteve lá por meses e amava o lugar. Estava com tudo pronto e bem planejado, só não contava com o maior risco que eu não podia administrar: As fortes chuvas que tornavam as trilhas extremamente perigosas. Fiquei frustrada demais, pois já me via na Bolívia, no salar de Uyuni. Levei a maior bronca do Hugo que me disse “vc não deve ficar assim. Você não tem idéia do que tem preparado para você no futuro”. Menino profeta! Eu de fato não imaginava o que ganharia dali para frente. As pessoas sempre tentam nos apoiar e falam palavras de animo, mas estava chata de tanta frustração como uma mimada que não pode perder um brinquedinho e logo faz birra. Mas, não tinha escolha e preenchi meus dias com muito trabalho.

Tempos atrás, conversando com o Rubens sobre montanhismo falei algo sobre o Everest e ele me disse que muitos montanhistas fazem a trilha até o acampamento base do Everest e não era difícil assim como eu imaginava. Fiquei surpresa e ele me encaminhou o relato do escritor e empresário Luciano Pires que havia feito a trilha e intitulado o relato ”O meu Everest”. Li todo até de madrugada. Lembro-me que meu coração palpitou.  Mas, não ousei sonhar ir tão longe, mas algo no fundo abriu-se para esta possibilidade. Não me considero uma montanhista, apenas uma “caminhante que perdeu o medo de errar e de caminhar”. Em fevereiro, no meu aniversário, minha doce amiga Regiane me presenteia com o livro do próprio Luciano, “O meu Everest”. Assim, ele se torna leitura repetida e obrigatória e meu pensamento a desejar conhecer sargamatha é recorrente. Mas, quem sou eu??. Fuço a internet e começo a ler tudo sobre a montanha mais desejada e comentada e alta do mundo. Paralelo a minha história, Paula relata que havia recebido um email sobre uma expedição ao acampamento base do Everest e disse que seu coração disparou ao ler e retornou perguntando se aquilo era apenas para alpinistas e recebeu a resposta que era para qualquer um que se interessa  por treking e montanhas, mas era necessário um bom preparo físico. Daí não teve mais sossego e comprou exatamente o livro: O meu Everest! Convidou a Ade que topou na hora e lembraram-se de mim. Paula me ligou e quando disse-lhe que estava lendo o livro e com o coração no Everest, ficamos arrepiadas e começamos a planejar uma expedição para 2011. Ao conversarmos por email nos desafiamos para realização da viagem em 2010. Todas responderam  sim ao desafio.Sugeri outubro em função do feriado e da temporada propicia na região. Paula ficou responsável pela consulta das passagens e eu consultaria amigos, net, e faríamos um planejamento a três. Ao consultar trechos, preços, vistos a data ficou melhor definida para setembro, pelo Qatar , Emirados Árabe, pois não precisaríamos de vistos. Onde fica os Emirados Árabe?? Precisava estudar melhor geografia e me acostumar com a idéia de estar do outro lado do mundo em uma região nunca antes imaginado. Sabia que me chamariam de doida e sabia também que apenas algumas pessoas apoiariam minha decisão e sabia bem quem eram elas e recorreria quando sentisse a necessidade de fortalecimento, apoio e amparo. Sutilmente pedi isso e senti a confiança nas palavras, emoção e compartilhamento dos preparativos. Ainda sou grata a eles. Não sabem a profundidade do carinho que nutro ao lembrar que minha insegurança se dissolvia a medida que me perguntavam e me ajudavam a delinear um sonho, simples para muitos e extremamente simbólico para mim.

Algum tempo depois surge a proposta de viajar para os EUA a trabalho no mês de julho. O MJ informa que a viagem seria realizada em setembro. Começa a agonia. Frustrada novamente me desanimo e comunico com pesar as meninas que existe a possibilidade de conflito de datas e havia deixado-as  livres para viajar sem mim. Paula se mantém firme e disse que não vê a viagem ao Everest sem mim. Iríamos juntas e sentia isso o tempo todo. Minha falta de fé enevoava meus pensamentos e

minha esperança. A falta de fé embota os olhos, agora posso afirmar isso. Uma semana antes da data marcada, fui a Brasília e sou informada que a viagem aconteceria dois dias depois do retorno ao Nepal. Não tenho dúvidas, “eu verei o meu Everest!!!” Agora vejo a arquitetura divina, se nós tivéssemos comprado as passagens para o mês de outubro eu não poderia ir, Se a viagem à Bolívia tivesse acontecido eu também não poderia ir. Se eu não sonhasse, eu também não poderia ir. “E cá estou eu a caminho da trilha que me ensina as palavras apostólicas sobre a fé: Um fundamento das coisas que não se vê, mas se espera”.

Sim, tudo é uma preparação e essa frase foi dita ainda na Patagônia quando as meninas não imaginavam o quanto o circuito W era difícil para elas. Que bom que não sabiam, assim puderam fazer.


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