quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Free Tibet
Por toda
parte as cachoeiras dão ao lugar um aspecto especial. O som terno que os ventos
trazem dão a impressão que tudo é vívido e pulsante. Surgem enormes pinheiros
com frutos azuis e a mata apresenta-se mais fechada e viçosa. Almoçamos em TAMO
com vistas às montanhas do Tibet. Que pena que não tínhamos colocado em
nosso roteiro uma trilha até o Tibet. Fiquei seduzida por essa possibilidade.
Ficamos com a visão do rio Tibet caudaloso e misterioso. Lembro-me da luta dos
povos da região pela liberdade e independência do Tibet que em função desse
sonho merecido e justo muitos já perderam suas vidas.
A visita ao
monastério não surpreende muito. São muitos símbolos, cores e cheiro de
incenso, mas sem nenhuma revelação adicional. O lugar é muito simples e dará
lugar a um novo templo que está sendo construído. É uma obra linda e conforme
previsão ficará pronto ano que vem. Quem sabe um de meus amigos poderá
retratá-los para mim quando aqui chegar?
Retornamos
como quem volta para completar as letras que faltam na palavra despedida.
Eu e Paula
andamos por Namche e encontramos uma comunidade repleta e agitada de turistas,
comércio intenso, idas e vindas de gente bonita carregando na mochila metas,
sonhos, desejos, cultura que tão diferentes parecem iguais. Jantamos falando de
nossos processos internos, nossos ritos, medos, anseios e a forma como lidamos
com nossos monstros que deixamos crescer dentro de nós, mas que a medida que o
domesticamos aprendemos a sermos melhores. Boas razões para estar no Himalaia,
atravessar as montanhas internas que escondem as bênçãos de um horizonte de
liberdade e consciência crítica ativada.
AS PONTES!
São dezenas
de pontes metálicas com lateral aramado,
fundo ( chão) vazado e todas enfeitadas com as bandeirinhas budistas tibetanas.
Elas ligam os abismos, quase sempre acima de um rio. São altas e lindas. Ao
passar junto com os animais e suas cargas pesadas, elas balançam
aumentando a emoção da travessia. O simbolismo das pontes sempre me encantou,
essas muito mais. Em um ambiente místico e ao mesmo tempo simples os homens
superam as distancias, transpõem barreiras e mantém suas culturas com beleza e
singela ao criar engenhosamente pontes que nos ensinam sobre como as
extremidades podem ser encurtadas e distancias transpostas. Precisamos aprender
com as pontes e aplicar esse ensinamento a nossa vida cheia de barreias e distancias
instransponíveis esperando coragem de edificarmos pontes em lugar de
desistirmos e aumentarmos o caminho da chegada.
OS
NEPALESES
Temos muito
a aprender com os nepaleses. São simples e muito simpáticos com postura honesta
nas relações em especial, como verificamos, no comércio. Estão sempre a
cumprimentar com um tímido NAMASTÊ! Estão sempre envolvidos em alguma
atividade. Talvez explique nunca encontramos um nepalês gordo. A base da
alimentação é a batata, repolho, arroz e massa, mas apenas uma porção.
No Nepal
fala-se em torno de 70 dialetos e existe mais de 30 etnias. É um povo tolerante
com sua diversidade religiosa, diferentemente da Índia e China seus vizinhos.
BRASILEIROS
RECONHECEM BRASILEIROS
Depois de
passarmos a noite em PHAKDING, lugar simples e pouco estruturado, mas
onde foi possível tomar um banho quente e fazermos uma refeição bem original:
Dal Bhat e massa sem molho para Paula. RAM resolveu nos conceituar por meio de
suas impressões e vivencia a nosso respeito, Quésia canta, Ade dança e Paula...
daí, ele faz o gesto que dela abaixando e ela diz:
Paula caga...Rimos muito com sua descontração conquistada em nossa companhia.
No retorno
vejo um homem negro ao fim de uma ponte e me chama a atenção. Era a primeira
pessoa negra que via em toda a trilha e quando ele vira, reconheço uma
bandeirinha do Brasil. Era um brasileiro e estava com um grupo de Belo
Horizonte. Cumprimentamos-nos, fizemos a típica festa de encontro de
brasileiros, tiramos fotos e seguimos viagem. Eles acharam surpreendente três
mulheres sozinhas fazendo a trilha no Nepal! Você não viu nada meu irmão.
Coragem é uma mulher parindo, o resto é fichinha!.
DESPEDINDO
DA TRILHA
Hoje é dia
sete de outubro e é o último dia de trilha. Mesmo com muita saudade de casa,
dos amigos, da vidinha besta em que me reconheço, sinto um aperto no coração. O
caminho é familiar e não sentimos cansaço. O dia está iluminado e vimos agora
muitos trekkers começando suas trilhas e muitos carregadores na sua árdua
tarefa de possibilitar os sonhos alheios por meio de sua força conquistada no
sangue de gerações em
gerações. Irão fazer e viver as mesmas experiências, ou pelo
menos parecidos com o que vivemos. Dá vontade de dizer, não desistam, vale a
pena. Mas estamos na trilha e precisamos seguir. Eles precisam seguir e
enfrentar também seus desafios. Vamos lembrando muitas canções e vamos
percebemos com mais nitidez as nuances dos lugares e das pessoas. Estamos
esvaziadas da ansiedade anterior e agora nossos olhos podem ver com mais
nitidez os elementos que compõem o lugar. Chegamos a LUKLA. Ficamos no
resort, um lodge como outro qualquer, chamado North face. Ade e Paula estão
cansadas e eu? Com toda a pilha!!!
Passamos uma tarde prazerosa no Starbucks. Abrimos emails, enchemos
nossos corações da alegria vinda do outro lado do mundo com as noticias e os
recadinhos encaminhados por parentes e amigos e saímos para explorar o local.
Vimos muitas crianças e adolescentes pelas ruas. Alguns tendo seu diferencial
do tipo físico típico da região por meio de penteados bem ocidentalizados
conseguidos com porções substanciais de gel. O comércio basicamente é voltado
para turistas com vendas de produtos de montanhismo e produtos de subsistência,
como algumas verduras e alimentos secos. È fácil imaginar o porquê de tanta
criança. No inverno onde não há presença de turistas as pessoas não tem mais
nada a fazer, apenas a ficar em casa e fazer filhos.
Dia
seguinte saímos bem cedo para o aeroporto de Lukla. Era nossa viagem de retorno
onde deixaríamos para trás as montanhas mágicas do Himalaia. Muitas revistas
nos pertences, revista pessoal, confusão, ida e vindas de passageiros, vôos
atrasados, mas muita sorte no tempo que muda conforme humor dos Deuses, estamos
novamente no minúsculo avião que vai sobrevoar a cordilheira do Himalaia .
Lá embaixo
as nuvens com sua delicadeza concorrem com a grande muralha branca que se
impõem por todo lado. Lá está a beleza que nossos olhos jamais vão esquecer.
Todos os tons de branco foram usados pelo criador em sua paleta divina que Ele
só usa em dias especiais de criação forma a cordilheira mais perfeita e
misteriosa que os mortais podem almejar.
Eu e Paula não resistimos olhar para as montanhas em despedida e choramos de
emoção. Saudade, alegria e gratidão. Temos a convicção do quanto somos
privilegiadas em contemplar o desfile de tanta beleza. Não existem conquistas
sem sacrifícios e nós fizemos o nosso. Não existe aprendizado sem esvaziamento
e nós nos permitimos isso. Não existe amadurecimento sem tornarmo-nos crianças
novamente e deixamo-nos brincar e viver. Não existe sabedoria se não
identificarmos nossos medos e o enfrentarmos. Não veremos a luz se não olharmos
as trevas de frente até dissipá-la. Não existe jóia se a pedra bruta não
permitir-se ser lapidada com dor, enfim não existe vitória sem sonhos e nossos
sonhos são do tamanho que ousamos sonhar. Os nossos eram do tamanho de uma
montanha. Nada mais, nada menos que a maior montanha do mundo, O EVEREST!!!
.
As montanhas nos aproximam de Deus
AS MONTANHAS NOS APROXIMAM DA
DIVINDADE
Seguimos para LUSA, um caminho
pela encosta das montanhas que eram adornadas por minúsculas flores e um rio de
águas fortes e brancas a correr abaixo de nós. Nem parece que é real. É como se
estivéssemos dentro do sonho, talvez a alma da minha’alma sonhando. Passamos por
lagos sagrados de Gokyo com montanhas cheias de vegetação colorida de vermelho
e amarelo. Cachoeiras imensas lambiam a montanha e alimentavam o rio turbulento.
Bosques apareciam ao som das muitas águas que faziam nossos olhos olharem para
o interior e buscarem tão somente o que era essencial. Não importa o caminho que buscamos trilhar se
ele não nos leva a Deus, seja lá qual seja nosso conceito de divindade, ao
final não teremos a sensação da vitoria
se o terminarmos da mesma forma que começamos . Tenho claro, como as águas
cristalinas, que a natureza que todo percurso precisa ter, é a da busca pelo
sentido da vida. Isso implica não nos concentrarmos em nossos desejos e
necessidades materiais, mas ultrapassarmos nossas fronteiras e olharmos os
desafios como escada necessária ao crescimento visando a generosidade, o amor,
aprendizagem do perdão, a solidariedade e o conhecimento da vontade de Deus e nosso percurso não terá sido em vão e nem nos
perderemos em nós mesmo.
As montanhas perfumadas me encantam e preciso
parar em muitos momentos para dizer-lhes o que estava sentido, para ser grata,
para deixar aos seus pés fragmentos de novos sonhos, para sorver a doçura do
seu perfume que me inebriava os pensamentos. Caminhava em silencio ouvindo o
sussurro dos ventos, sentindo a luz do sol a penetrar na pele. Pensava em tanta
gente querida e desejava-lhes a paz que estava sentindo. Alguém já perguntou a
alguém o que é felicidade? Eu me habilito a responder, é estar no caminho das
montanhas perfumadas agradecendo a Deus o presente da vida. E o resto? É resto!
Pedaços de história. RAM entende que preciso parar muitas vezes e fica ao longe
sem me chamar para retornar, sem conversar, sem interromper, respeitando meus
momentos de plenitude e realismo mágico!
Andamos o dia todo e esperávamos
chegar a Namche Bazar e encontrar a Paula, mas não foi possível. A última hora
de trilha foi extremamente desgastante. Os pés praticamente não saíam da
vertical . O dia anterior tinha deixado suas marcas e nossas forças estavam
exauridas e nos impunha limites. Pernoitamos em MONG LA . Um
lugarejo no alto da montanha e mesmo com muita neblina cobrindo toda a região
havia muitas crianças brincando. Tentamos saber notícias de Paula e não
conseguimos, ela devia estar em Namche bazar e não estava. Pirei!! Me senti
péssima e angustiada. Como ela estava se sentindo? Onde ela estava ? Vi aflorar
todo meu senso de proteção e cuidado exacerbado. Como pudemos deixá-la sozinha?
Lembrei-me da Paula nos fazendo ri ao dizer que tava cagando e andando. Como
era no sentido literal rimos muito e agora não tínhamos noticias de nossa
amiga. Minha preocupação exercia pressão no RAM que dizia que ela devia ter ligado
conforme combinado. Eu o deixava pior com meu aparente tormento. Ade disse que
sentia que ela estava bem, mas isso não era suficiente para acalmar meu coração
e ajoelhei-me à noite para orar pela segurança e saúde dela. Decidimos que não
pararíamos para conhecer um mosteiro e a região famosa pelas histórias de Iak e
seguimos para achá-la em outro lodge. Depois de uma noite mal dormida seguimos o
caminho de retorno e ainda na metade dele soubemos que Paula estava bem e que
havia estado em um lodge perto. Que alívio!! Pudemos observar a natureza com o
coração esvaziado da angustia que nos assolava anteriormente. A estrada era
mais larga e florida e muito iluminada
pelo sol. Parava constantemente para apreciar o jogo de luz e sombras que eram
projetadas pelo sol e pelas montanhas e sempre o perfume do doce incenso que
penetrava meus sentidos. RAM dizia: She will marry the montains! I Will!
ONDE DEUS
POSSA ME OUVIR
Invade-me
uma estranha sensação de que não voltaria mais ali e começa o caminho de
retorno com sabor de despedida. Precisava reter ao máximo a imagem do
gigantismo mágico do Himalaia. Muitos trekkers fazendo o caminho inverso
entremeavam a sensação de adeus. Queria eternizar as monumentais montanhas e
seu perfume em mim.
Sempre era
recorrente a canção que vinha á minha
mente, “ Onde Deus possa me ouvir” de Vander Lee. Néo me encaminhou esta canção
e quando ouvi pela primeira vez chorei de emoção. Eu o amo com amor eterno e
nos identificamos sem procurar entender nossa cumplicidade e confiança. Ele me
sugeriu a versão com Gal Costa que também é linda, mas para mim Vander Lee teve
inspiração divina ao compor e cantar essa canção. Por muitas vezes as meninas
também começaram a cantarolar sem nunca ter ouvido antes, de tanto que cantei
na trilha. Para mim, foi a canção do Everest...Amo mais ainda Neo !
Que
maravilha que começamos a trilha antes da alta temporada. Congestionamento na
trilha pode tirar em muito a mágica do lugar. Bom mesmo é só priorizar passagem
para os iaques, do contrário é difícil manter o pensamento meditativo
esbarrando em caminhantes o tempo todo.
Depois de
muitos dias com várias camadas de roupas podíamos agora ficar apenas com uma
camada só. Kyangjuma ficará marcado como o local que aliviou nossos corações,
pois aqui tivemos noticia da nossa amiga e apaixonada Paula.
Montanhas Perfumadas!
KALAPATHAR A MORADA DOS ANJOS
Acordamos às quatro da manhã e nos
aquecemos ao máximo para seguirmos a trilha e conquistarmos a montanha que mais
nos desafiava, o kalapathar!. São 5550 mt de altitude e nunca havia chegado tão alto antes. Meu
Deus não tinha noção do que nos aguardava! No escuro e com muita neblina
andando com temperatura negativa de -5 º , o esforço era redobrado. A montanha
estava coberta com uma fina camada de gelo, assim como nossas roupas e até os
cílios. A água do cantil tinha cristalizado ficando dramático bebê-la, pois aumentava mais ainda a sensação de frio. Eu, a
princípio usava duas luvas e ainda assim sentia os dedos congelando e não podia
mais carregar os bastões. Os pés, mesmo com três meias estavam gelados e a
trilha á medida que subíamos ficava mais íngreme, pegajosa e difícil. Eu olhava
para cima procurando o pico e sentia que ele se afastava de nós. Quando os
primeiros raios de sol despertaram o amanhecer
para os mortais, e fazia isso em tecla slow motion, é que conseguimos sentir menos o desconforto causado pelo frio
e vento. As montanhas com seus picos sendo iluminadas pelos raios do sol tornavam
o cenário panorâmico, mas não menos penoso. Por alguns momentos achei que não
conseguiria chegar ao topo, mas a idéia de uma paisagem singular, ousada por
poucos nos instigava a prosseguir. Também não saberia conviver com a
possibilidade de ter desistido no meio do caminho quando podia ter ido mais.
Eram só mais alguns passos, mais fôlego e chegaríamos a 5550 mt com apenas 50%
de oxigênio no ar. Mas o que é isso ??
Nada para três mulheres guerreiras com espadas ( bastões) nas mãos!, pensava
comigo numa tentativa de ludibriar o desanimo que tentava se apoderar de mim
diante do desafio. Não havia conseguido tomar active, pois era muito cedo e não
tenho muita disposição para ingerir nada
pela manhã. Mas, devia ter feito em nome da responsabilidade com o corpo.
Estava sem nenhuma reserva de energia. No dia anterior havíamos andado mais de
onze horas e a noite de sono não foi suficiente para recuperar tanto esforço. Lembrei-me
muito do Rogério, meu amigo montanhista que conhece tanto das montanhas no mundo.
Que torce tanto por mim, que disse textualmente que eu era capaz. Então eu era!
Enfim, chegamos ao cume da montanha com enormes pedras irregulares, usando os
pés e as mãos!! E posso dizer, valeu a pena!! Deixem de ver tudo, até mesmo
deixe de ir ao acampamento base, mas, não deixem de ir ao kalapathar, eu deixo
este registro para quem quiser aprender um pouco com nossa experiência!. O
lugar é a morada dos anjos. Pensei em dizer que era a morada dos deuses, mas
pode ser que eles sejam vaidosos e queiram competir com a beleza do lugar. Kalapathar
é a morada dos anjos. E se você se
conectar pode vê-los voando por entre as montanhas mais lindas do mundo. Acho
que eles estão lá nos esperando e ficam a brincar de esconde- esconde com as
nuvens que ocultam e revelam o
encantamento do cinturão de montanhas mágicas! Deve ser o lugar mais perto da
beleza do céu. O único merecedor de encostar-se às alturas celestiais. O lotse é puro e majestoso. O Everest com seu
pico cristalizado e dourado pelo sol nascente. Tudo lindo e grandioso.
Estávamos acima das nuvens extasiadas com tanta generosidade em beleza. A neblina vinha e
escondia todas as montanhas e o vento faceiro soprava novamente para que retessemos
todo azul, todo o branco que nossa alma precisava e não sabia até aquele dia e
por isso era necessário registrar os contornos do Himalaia em nossa mente e
coração . Sabíamos que éramos privilegiadas por estarmos ali e o cansaço
tornou-se um preço pequeno a pagar, assim como o frio e as dores não
representavam mais nada diante do que
nossos olhos contemplavam. Terra sagrada!
AS MONTANHAS PERFUMADAS!
Depois do kalapathar, andamos mais
quatro horas e chegamos em LOBUCHE e depois de um repetido almoço, Paula
a comer batata, ovo e arroz tudo muito bem temperado com água e sal! Coitada de
minha amiga. Estava em situação deplorável. Tudo que comia também esvaziava.
Descansamos por uma hora e pegamos a trilha novamente com denso nevoeiro e
muito frio. Por todo o caminho tínhamos uns 30 centimetros de espaço para andar
na trilha e um abismo lá embaixo difícil de calcular a altura. Acho que se
tivesse alguém lá embaixo o veríamos do tamanho de um camundongo. Era
necessário cuidado para não cair. Pelo abismo se estendia um tapete colorido de
musgos vermelhos e verde intenso com
minúsculas flores azuis, lilás e branca até chegar ao rio que cortava todo o
vale. O vento gelado sussurrava seu canto misterioso e as brumas cada vez mais
densas compunha um cenário que me fazia esperar a qualquer momento a abertura
de um portal mágico, como nos filmes de Harry Porter . Andar por este caminho
me enchia de emoção e enternecia meu coração. Ao fazermos uma curva o perfume
das flores e dos arbustos de incenso invadiu meus sentidos perfumando minha
alma e meus pensamentos. Parei para sorver todo o delicado perfume que vinha ao
meu encontro. Começo a chorar compulsivamente e a soluçar de pura emoção. RAM,
nosso guia sem entender nada fica a dizer no cry, no problem e a Paula a olhar
com cumplicidade a minha emoção. Sigo chorando, mas feliz, embalada pelo doce
perfume das montanhas que inebria meus pensamentos, canções e poemas e que a partir daquele dia me acompanharia por toda
a trilha. Às 17:00 hs chegamos a Dzonglha, ao que seria o pior abrigo que ficaríamos. O
lugar é minúsculo, cheira a fumaça de cocô de iaque e temos uma cama de casal
para três em um quarto tão minúsculo que preciso sair para que uma das meninas
pudesse entrar. Sabíamos que precisaríamos de uma boa dose de bom humor para
enfrentarmos as dificuldades inerentes á expedição e aquele necessitava de uma
garrafa cheia desse humor prometido, afinal, havíamos andado onze horas e
estávamos mais que exaustas e com
cansaço acumulado.Mas, temos que admitir, quanta gente bonita naquele
lugar!!! Ainda tinha os insuportavelmente perfeitos assim definidos por nós:
lindo, simpático, educado e montanhista !! Assim o lugar não ficou tão feio
como descrito acima !! Mas, não temos
ânimo para paquera. Precisamos descansar e manter o foco. Neste dia comecei a
sentir dores na parte superior do fêmur e foi preciso ser medicada pelo doctor montain. Nem “colírio” sara uma dor dessas,
mas passou e nada de sustos, além do desconforto da Paula.
A montanha pulsa!
A MONTANHA ESTÁ VIVA!
Acordamos cedo em mais um dia de
trilha e depois de um revigorante café, saímos para um amanhecer que nos fez
cantar Happy Day. As montanhas lindas com seu branco a harmonizar o azul
celestial de um céu sem nuvens nos enchem de paz.
O lugar ainda parece um cenário lunar
ou um fundo de oceano esvaziado. Deparamo-nos com um paredão de quase 90º.
Lembro-me de mestre Baldin que chamaria de escalaminhada e certamente usaria
cordas cuidando da segurança como primeiro mandamento da aventura, mas, vamos
subindo com o fôlego e a disposição que dispomos. Perde-se pouco a noção de
tempo, espaço, perspectiva em função, acho, da amplidão e da mudança de
padrões de referencia. O glaciar que agora vemos em toda a sua
extensão deixa tudo com nuances transcendental. Ouvimos o deslocamento de um
bloco que se desprende e estronda ao cair. A montanha está viva e avisa que
está ali! Pedimos permissão para entrar? Peça então! Fiquei imaginando aquela
trilha cheia de neve. Que bom que escolhemos o outono. Andamos por 3:00h30 Mn e chegamos a GORAK SHEP A 5.180 MT de
altitude e estamos bem e animadas pois vamos seguir a trilha até o acampamento
base do Everest. Agora está mais perto e a ansiedade nos impulsiona desde a
noite anterior.
BASE CAMP EVEREST
Andamos por umas três horas entre e
sobre pedras. Um longo caminho que parecia não acabar mais. Vimos um glaciar
enorme e quase todo coberto pelas pedras descidas das montanhas. Enquanto íamos
a maioria das pessoas estavam voltando e isso nos inquietava á medida que
aumentava os ventos e o frio. Quando
chegamos ao acampamento base e a despeito dele não ter nada de especial,
estávamos felizes pela simbologia, pelo que representava e a partir dali apenas
alpinistas seguiria. Era nossa meta! Conquistamos a vitória em estabelecer um
objetivo e cumprir. Abrimos a bandeira do Brasil confeccionada pelos presos de
Brasília do projeto Pintando a Liberdade e levada na mochila especialmente para
aquela finalidade. No ES sou a coordenadora do projeto e tenho muito orgulho
desse trabalho, portanto era simbólico levá-la. Logo dois nativos reconheceram
nossa bandeira como sendo do Brasil e nos fotografaram e lembram de Ronaldinho,
Pelé, Kaká. Viva o futebol de nossa terra que nos faz importante nos confins da
terra. Ainda cantarolaram Brasil...Brasil ...Pra mim Brasil...música de Ary
Barroso, cantada por muita gente boa.Yes! Coroação total!!!
Ficamos ali embasbacadas e emocionadas
imaginando o caminho a ser percorrido pelos alpinistas. Ai que inveja deles.
Queria também estar entre eles esperando o momento impar da conquista do cume. Essa
inveja não diminui a felicidade, pelo contrário, aumenta a admiração e a
importância em estar ali. Uma prece a todos os heróis das montanhas que
deixaram suas vidas e seus corpos no coração da montanha. Ainda que nos
sintamos fortes e privilegiados por estar ali, paradoxalmente nos damos conta
da nossa fragilidade e mortalidade.
Lá embaixo muito gelo e uma montanha
com seus mistérios a desafiar bravios homens e mulheres que vivem a vida na
intensidade que nós pobres mortais não aventamos. Honrados homens das montanhas
com sua sede e fome da voz da montanha e de sua energia. Quanta experiência
pessoal, espiritual e existencial integra suas vivencias neste lugar de escasso
acesso. Quantas almas tragadas na brancura da sargamatha? Quantas fronteiras
pessoais e técnicas ultrapassadas para conquistar o topo de algo mais que
montanha, o topo do sonho que cada um estabelece para si como incursões que não
podemos entender pela racionalidade da lógica comum. Alguém que poe sua própria
vida em risco para chegar a um objetivo não é um aventureiro irresponsável, mas
um homem herói que alcança uma existência plena, pois
foi fiel ao que acredita e investiu suas
forças e vida nesse propósito. Não foi uma vida vivida em vão, mas no topo do
sonho e acima dos limites da mediocridade.
Ao retornarmos com ventos trazendo
fortes rafagas deixam as meninas exaustas,
no entanto, eu estava revigorada . Ade tremia de frio e eu cantarolava as
musicas da montanha. Mais uma noite sem banho. Acho também que não trocaria a
cama por um banho. Estava tudo bem. Não tava sentindo falta de nada. Não
precisava de nada. Não hoje!
A montanha pulsa!
A MONTANHA ESTÁ VIVA!
Acordamos cedo em mais um dia de
trilha e depois de um revigorante café, saímos para um amanhecer que nos fez
cantar Happy Day. As montanhas lindas com seu branco a harmonizar o azul
celestial de um céu sem nuvens nos enchem de paz.
O lugar ainda parece um cenário lunar
ou um fundo de oceano esvaziado. Deparamo-nos com um paredão de quase 90º.
Lembro-me de mestre Baldin que chamaria de escalaminhada e certamente usaria
cordas cuidando da segurança como primeiro mandamento da aventura, mas, vamos
subindo com o fôlego e a disposição que dispomos. Perde-se pouco a noção de
tempo, espaço, perspectiva em função, acho, da amplidão e da mudança de
padrões de referencia. O glaciar que agora vemos em toda a sua
extensão deixa tudo com nuances transcendental. Ouvimos o deslocamento de um
bloco que se desprende e estronda ao cair. A montanha está viva e avisa que
está ali! Pedimos permissão para entrar? Peça então! Fiquei imaginando aquela
trilha cheia de neve. Que bom que escolhemos o outono. Andamos por 3:00h30 Mn e chegamos a GORAK SHEP A 5.180 MT de
altitude e estamos bem e animadas pois vamos seguir a trilha até o acampamento
base do Everest. Agora está mais perto e a ansiedade nos impulsiona desde a
noite anterior.
BASE CAMP EVEREST
Andamos por umas três horas entre e
sobre pedras. Um longo caminho que parecia não acabar mais. Vimos um glaciar
enorme e quase todo coberto pelas pedras descidas das montanhas. Enquanto íamos
a maioria das pessoas estavam voltando e isso nos inquietava á medida que
aumentava os ventos e o frio. Quando
chegamos ao acampamento base e a despeito dele não ter nada de especial,
estávamos felizes pela simbologia, pelo que representava e a partir dali apenas
alpinistas seguiria. Era nossa meta! Conquistamos a vitória em estabelecer um
objetivo e cumprir. Abrimos a bandeira do Brasil confeccionada pelos presos de
Brasília do projeto Pintando a Liberdade e levada na mochila especialmente para
aquela finalidade. No ES sou a coordenadora do projeto e tenho muito orgulho
desse trabalho, portanto era simbólico levá-la. Logo dois nativos reconheceram
nossa bandeira como sendo do Brasil e nos fotografaram e lembram de Ronaldinho,
Pelé, Kaká. Viva o futebol de nossa terra que nos faz importante nos confins da
terra. Ainda cantarolaram Brasil...Brasil ...Pra mim Brasil...música de Ary
Barroso, cantada por muita gente boa.Yes! Coroação total!!!
Ficamos ali embasbacadas e emocionadas
imaginando o caminho a ser percorrido pelos alpinistas. Ai que inveja deles.
Queria também estar entre eles esperando o momento impar da conquista do cume. Essa
inveja não diminui a felicidade, pelo contrário, aumenta a admiração e a
importância em estar ali. Uma prece a todos os heróis das montanhas que
deixaram suas vidas e seus corpos no coração da montanha. Ainda que nos
sintamos fortes e privilegiados por estar ali, paradoxalmente nos damos conta
da nossa fragilidade e mortalidade.
Lá embaixo muito gelo e uma montanha
com seus mistérios a desafiar bravios homens e mulheres que vivem a vida na
intensidade que nós pobres mortais não aventamos. Honrados homens das montanhas
com sua sede e fome da voz da montanha e de sua energia. Quanta experiência
pessoal, espiritual e existencial integra suas vivencias neste lugar de escasso
acesso. Quantas almas tragadas na brancura da sargamatha? Quantas fronteiras
pessoais e técnicas ultrapassadas para conquistar o topo de algo mais que
montanha, o topo do sonho que cada um estabelece para si como incursões que não
podemos entender pela racionalidade da lógica comum. Alguém que poe sua própria
vida em risco para chegar a um objetivo não é um aventureiro irresponsável, mas
um homem herói que alcança uma existência plena, pois
foi fiel ao que acredita e investiu suas
forças e vida nesse propósito. Não foi uma vida vivida em vão, mas no topo do
sonho e acima dos limites da mediocridade.
Ao retornarmos com ventos trazendo
fortes rafagas deixam as meninas exaustas,
no entanto, eu estava revigorada . Ade tremia de frio e eu cantarolava as
musicas da montanha. Mais uma noite sem banho. Acho também que não trocaria a
cama por um banho. Estava tudo bem. Não tava sentindo falta de nada. Não
precisava de nada. Não hoje!
As montanhas do Himalaya abraçam!
QUINTO DIA
Saímos cedo e é o quinto dia da
expedição. Logo depois das 02h30min chegamos a PANGBOCHE a 4000 mt de altitude. Todos estão bem, mas vale um descanso
para recuperar as forças. A subida é pela encosta da montanha e caminhar contornando-a
mais ou menos pela metade dela sentindo o vale abaixo de nós é uma sensação indescritível.
Do outro lado vemos altíssimas montanhas com suas arvores imensas que como um manto de veludo
verde em vários tons vai cobrindo sua face. A trilha é sinuosa e cheia de
pedras irregulares e pela montanha pequenos arbustos vermelhos e minúsculas
flores brancas a espalhar-se delicadamente como quem anuncia, minha fragilidade
é a força da minha beleza. Por entre esse
gigantesco cannyon o rio de águas
ruidosas e brancas correm em curvas abertas seguindo o curso do seu destino com
as pedras brancas e arredondadas a lhes fazer companhia. O som revela uma
composição única e indecifrável levando para longe os mistérios do vale. Ao
chegarmos a SUMARE, um pequeno lodge
com jeito de abrigo rodeado de janelas com vidros que possibilitam clarear o
ambiente com a luz do dia paramos para almoçar. A luz do dia que generosamente
ilumina a todos os caminhantes que se aventuram pelo Himalaia funciona como um
estimulante e renova as forças e retiram as teias de aranha da mente e ocupa
todos os espaços com seu poder. Hoje comerei Rice fried com vegetais!
Usar o banheiro não é nenhuma
experiência poética como andar pelas majestosas montanhas. Normalmente um
casebre com um buraco no chão com uma pilha de capim seco para cobrir o que ali
foi deixado. Dependendo do estado, demora-se um pouco para recuperar-se da
experiência. Paula que o diga! Estava em um que era dividido em dois por uma
parede de folha de zinco e quem estava
ao lado gemia horrores. Valha-me Deus do céu!
A partir daqui a paisagem muda
significativamente. É como um divisor da natureza. A vegetação antes densa de
arvores, transforma-se em montanhas arenosas com resistentes arbustos verde
musgo que ainda na ausência de
fertilidade do solo fica florido na primavera
e suas flores são usadas para incenso e chá. À medida que andamos a
trilha fica cada vez mais arenosa com pedras redondas como se ali fosse
anteriormente um leito de rio. Chegamos em DINGBOCHE! Trata-se de um
vilarejo com razoável estrutura,energia
solar, banho a gás e muitos outros lodges que criam um movimento de pessoas
indo e vindo com seus sonhos e metas de trilheiros. Ficamos em Peac Ful e foi possível
usar a internet a 20 rupees por minuto, razoável. Dividi um quarto com Ade e
Paula ficou em um sozinha. Eu e ade combinamos bem e Paula dorme melhor assim.
O lugar é aconchegante, mas como é difícil escolher o mesmo cardápio no café da
manhã, almoço e jantar. Daqui é possível avistar Ama Dablam, Lotse, Taluche,
Cholatse, Neyse isban Peak.
Os montes nevados abraçam o vilarejo
como a todos nós que chegamos ávidos por sua beleza. Ficaremos dois dias para
aclimatação, afinal eu e Paula estamos com dor de cabeça e pressão na nuca e a
Paula esvai-se no banheiro o tempo todo. Faz um dia lindo com muita luz, ventos
gelados e eu adoro isso! Aproveitamos para passear, fotografar, lavar roupa e
beber chá de folhas frescas de hortelãs. Como em todos os lodges é no
restaurante que todas as tribos se encontram. Montanhistas, guias, sherpas,
turistas democraticamente compartilham o caloroso e aconchegante ambiente
enquanto a noite cai gelada trazendo todos para o mesmo lugar.
Quase todos os lodges têm a mesma
disposição e estrutura. São longos bancos de madeira atapetados e encostados na
janela que contornam todo o ambiente. Normalmente as janelas são de vidros e
revelam a paisagem lá fora e de qualquer lugar do restaurante é possível
contemplar o quadro emoldurado da estonteante beleza que aflora como poesia . Á frente dos bancos ficam as mesas bem
baixas e envernizadas em tom claro. É
sempre uma delicia repousar em um ambiente assim depois de um dia de caminhada,
em especial comer uma comida quente e um tomar um chá que lembra um abraço de
tão aconchegante. Estamos no 6º dia!
SEXTO DIA
O Dal Bhat ( guisado de lentilha com
uma porção de arroz e batata) é meu prato predileto que além de saboroso repõe
minhas energias rapidamente. Me sinto uma rainha neste lugar de tanta privação
e nem por isso menos bonito que o lugar mais rico do mundo. A vida em Ding
Boche segue em seu ritmo e dinâmica próprios dos
lugarejos da região. Homens e mulheres a trabalhar na lavoura de subsistência e
nos serviços de atendimento aos montanhistas. Aqui fica claro que não existe
divisão de tarefas por gênero. Homens e mulheres estão envolvidos em atividades
de manutenção, agricultura, serviços de cozinha ou ainda na preparação do
excremento dos iaques que depois de amassados e modelados como discos de vinil
são secos ao sol e guardados empilhados para serem utilizados como combustível.
Energia alternativa para uma região que precisa encontrar meios de subsistência
e sustentabilidade. Essa prática era muito mais comum, mas com a chegada da
energia solar são utilizados mais em aquecedores. Todo
o trabalho parece pesado com instrumentos ainda muito rudimentares, mas seguem
levando suas vidas e significando por meios de suas culturas e crenças.
Um dos melhores momentos do dia foi
ouvir o RAM demonstrando sua farmácia para nós. Ele tinha de tudo e demonstrava
a aplicabilidade de cada um por meio de mímicas e isso nos fazia cair na
gargalhada. O apelidamos de best montain doctor. Retornamos ao restaurante para
um delicioso chá e esperamos a noite chegar. Quando saímos para o quarto
ficamos impactadas com a beleza do céu na noite de todas estrelas. Ficamos
olhando o céu por muito tempo sem acreditar que um mesmo céu podia ser tão lindo aqui. Ele se
apresentava brilhante como pirilampos e indiferente a quem se dispusesse a olhar para cima e ser
tocado pela mágica que a noite no Himalaia reserva . Era uma abóboda piscando milhares de milhares de estrelas! Não sabia
que cabia tanta estrela a brilhar ao mesmo tempo no único céu que é tanto céu
de uma só vez até aquele dia. Todas muitas juntas como se falassem que a união
do brilho faz o céu intenso e vivo sem que pudéssemos definir quem era maior ou
mais brilhante. Ficamos assim olhando para o céu e girando sobre o próprio eixo
até que frio nos dominasse. Entramos silenciosas como se fosse possível reter
nos olhos a beleza do céu no seu firmamento misterioso e mágico.
TRABALHO DE ARTÍFICE
As propriedades e as lavouras são
cercadas por baixos muros de pedras. Eles são largos e acomodados sem nenhum
rejunte. É um perfeito trabalho de artífice. São simétricos e padronizados,
meticulosamente encaixados para ficarem firmes e além de proteger o solo em
função do desnível, serve também como divisor de propriedade. Essas pequenas
muralhas deixam a região com aspecto harmonioso e singelo como um brinquedo de
criança.
AS MONTANHAS ABRAÇAM
Estamos no sétimo dia de caminhada por
uma paisagem surreal. Andamos por uma paisagem rodeada de montanhas por todos
os lados. Estamos dentro de um vale e ao girarmos o corpo 360º tenho a sensação
de estar sendo abraçada pelas montanhas com a lua pálida a fazer-nos companhia.
O cenário é inacreditavelmente lindo e paro algumas vezes para absorver a
imagem da perfeição parecendo que estou em uma fotografia. Paramos para um
descanso em DITUKLA
TIKLA a 4620 mt de altitude. Um ponto de parada dos
montanhistas, que por sinal, como são lindos!! Em seguida caminhamos por quase
três horas de subida punk entre e sobre pedras de variadas formas e tamanhos.
Não existe trilha definida. Cada um coloca o pé onde melhor acomodar, é para
cima e com dificuldade.
O lugar dá impressão que ali foi um
grande oceano, pois lembra o leito de um rio seco. Chegamos a 4.800 mt de
altitude com muita dificuldade. A Paula dá sinais que não está bem em função da
evolução da dor de barriga e sinto uma pressão na nuca que me castiga muito
também. Ao final da subida paramos para um descanso junto aos totens de pedras
em homenagem aos montanhistas que morreram no Himalaia.
Não há mais subida, mas a paisagem é
desértica e nos deixa exaustas. Andamos seis horas até chegar a LOBUCHE. Milagrosamente
Ade tem energia fluindo enquanto eu e Paula estamos destruídas. Uma fragilidade
acachapante, mas momentânea. Ade traz
Paula pelo braço que chora cansada e emocionada. Ela nos consola e nos passa
energia e está tão elétrica que medita enviando energia aos amigos. Eu, na
verdade, preciso de um comprimido de diamox ou unoprofen, pois o limite das
forças está relacionando com os sintomas da altitude. Sentamos e nos damos as mãos
em sinal de apoio. Ade está bem e ficamos ali emocionadas compartilhando
ternura e compaixão. Depois de algumas horas de descanso estou renovada e
pronta para um chá e para retornar a trilha novamente.
Trilhas e suas liçoes
ALINHAMENTO
CÓSMICO
Assim
estávamos revelando os sonhos e os medos da preparação, sentadas no restaurante
do Lodge, as três ao som de um mantra. Falávamos da força da energia que nos
impulsionou até ali e comentei que acredito muito na energia e sei que ela
forte, sinto - as em minhas mãos. Queria fazer terapia em Reiki, mas, não
encontrava ninguém em Vitória especialista na área. Os olhos de Ade brilham e
ela diz, eu sou uma terapeuta Reikiana. Estou sentindo uma forte energia!
Estávamos sentadas no confortável assento atapetado. Paula, eu e Ade como um triangulo.
Ade pede para eu me aproximar e me estende as mãos espalmadas e eu faço o mesmo
juntando as minhas mãos às dela. Ade fala para Paula, fica que essa energia
está passando para você também! É um momento de pura magia e serenidade.
Surpreendente e não planejado. Uma conexão ao som de um mantra e de energia das
mãos e com muita ternura. Ninguém entra no ambiente que tudo se torna um templo
de algo maravilhoso fluindo entre nós. Ade pede que eu deite e passa energia para minha cabeça e coração.
Paula medita e ficamos sentindo a espiritualidade preencher todo o ambiente.
Depois ao
conversarmos sobre um símbolo para essa nova caminhada ao interior de nós,
Paula que está a vencer sua limitação física com sérios problemas no joelho,
revela que essa experiência acendeu sua crença adormecida. Disse que pensava em
tatuar um lírio pela simbologia do lírio na parábola em que diz que não devemos
viver ansiosos por coisa alguma, mas que devemos ser como os lírios que não
tecem nem ceifam e ainda assim são belos. Eu lembrei que essa parábola faz
parte do sermão da montanha proferido por Jesus. Fica nítido que estamos sendo
conduzidas por algo maior que nós três. Sim, tudo é uma preparação para uma
expedição dentro de nós mesmas a descobrir e conquistar o Everest do nosso
interior!.
RAM
Nosso guia,
RAM, é um homem baixinho como todo nepalês. Cuidadoso, atencioso e muito
alegre. Esforça-se a nos entender com nosso limitado inglês cheio de sotaque. Divertimos-nos
muito com a “delicadeza” dos gestos. Ao sorrir ou concordar com algo dá-nos
pequenos tapas nas costas ou pequenos empurrões capazes de nos desequilibrar.
Seus gestos bruscos tentando ser gentil nos divertem. Acho que terei muitas
manchas roxas pelos braços. Adotamos o procedimento e vamos nos cumprimentando
com pequenos empurrões e tapas “ carinhosos”. Estamos sempre a sorrir com ele e
agradecer sua prontidão em nos servir.
AMANHECER EM NAMCHE BAZAR
São 06h00min e o dia amanhece limpo
sem o denso nevoeiro que cobriu o lugarejo durante todo o dia e noite anterior.
Abrimos a janela do quarto e vimos um espetáculo á nossa frente. As montanhas
com seus picos cobertos de neve e a lua a lhes fazer companhia irradiando luz e
grandeza. Meus olhos mergulharam na beleza generosa que enchia a vila alheia a
nós. Aqui não precisamos de bens, de possuir nada além do que necessitamos para
passar o dia. Aqui na montanha ao sentir
os raios do sol dourando e iluminando lentamente os picos como a saudar
compassivamente a todos os elementos da natureza, sinto-me mais humana e mais
consciente do que realmente importa. O sol nos saúda e basta simplesmente
dizer, bom dia montanhas amigas. Bom dia Namche, ainda estais quieta e
misteriosa. Como passou a noite? Bom dia nuvens lépidas e brancas. Bom dia
vida...Podia sentir a saudação para mim..Bom dia Quésia, que bom que estais aqui
!!!! E assim a cidade ia despertando sutilmente para viver mais um dia de sua
história. Eu ali na janela do quarto a
agradecer a Deus pelo privilégio em estar realizando um sonho. “Tudo é
possível ao que crê!”
SEGUINDO A TRILHA
Saímos cedo com o frescor dos ventos
que vinham das montanhas. O dia estava luminoso e pelo caminho vislumbramos o
imponente Everest, Ama Dablam e Lotse a instigar os caminhantes a parar e contemplar
sua beleza. Abaixo de nós, vales imensos com florestas de pinheiros. Flores
minúsculas e coloridas de um outono amarelo ocre desafiando com sua delicadeza
a compor o cenário de gigantes montanhas. “Se eu tivesse um dia para te dar,
este seria o dia”.
Depois de três horas e meia de descida
suave, paramos em um dos muitos lodges com restaurante para comermos, o de
sempre! Que importa? Estou no paraíso ouvindo a musica que toca o coração dos
meus amigos e assim toca o meu também e vivendo uma história que marcará minha
vida para sempre.
CHÁ DE FLORES E FELICIDADE
Depois de mais de duas horas de subida
intensa, chegamos a TENG BOCHE com 3.867 mt de altitude. Cheguei com
muita dor de cabeça e uma forte pressão na nuca. O desconforto era grande e
mesmo dispondo de medicamentos tinha uma sensação de mal estar muito intensa. O lugar dispõe de quartos
minúsculos e uma pequena estrutura de restaurante, internet que no dia não
funcionava e um grande mosteiro com movimentada visitação de turistas. O melhor
do lugar é pedir um chá de flores da região com sabor e perfume de uma
delicadeza ímpar. São as flores usadas também para fazer incenso. O melhor chá
que havia tomado na vida. Ficamos aquecidas no restaurante enquanto esperávamos
nosso jantar. A despeito da precariedade do ambiente, estávamos aquecidas e
confortáveis e bem atendidas. Os turistas vão chegando aos poucos, com seus
diversos estilos e fisionomias. Sem dúvida parecemos as pessoas mais felizes do
lugar. Estamos sempre cantando, sorrindo e brincando com nosso guia, ainda que
com dor de cabeça e um leve mal estar . Sim, felicidade é um estado de espírito
que acontece em função da escolha, do reconhecimento que a vida é feita de
momentos que nós fazemos de especial e seus pedaços são “costurados” dentro de
nós no intricado movimento sutil e invisível que invade todos os sentidos e
deixa agente “besta” de tanto feliz que se derrama e escorre pelos olhos,
sorrisos e boca.
Faz muito frio e no minúsculo quarto
estamos sentadas a escrever e esperar o sono se apresentar como quem espera um
amigo na praça. Três camas num cubículo com três mulheres de felicidade gigante.
Neste lugar é possível um banho
quente, mas em função das fortes dores de cabeça eu não conseguia nem mais andar
e Ade também não se dispôs a ir. Eu havia levado medicamento receitado pelo
otorrino e o unoprofen indicado pelo Rubens. Associo os dois e sinto o
resultado se instalando pacientemente em mim, grata a Deus, ao medico e o meu
consultor montanhista cuidadoso e meticuloso com tudo. Vale um registro: o banheiro com letreiros escrito em francês,
toilet e isso vai se repetir por toda a trilha. Um cafofo com vaso turco que à
medida que os montanhistas vão chegando tornam-se catastróficos. São as
condições improvisadas da trilha.
Paciência, que seja esse o preço para a contemplação diária do espetáculo que a
natureza nos proporciona.
Diário Acampamento Base do Everest
NAMCHE
BAZAR
Seguimos
caminho para Namche Bazar. Andamos por quatro horas e sempre subindo. O caminho
é mágico com o rio sendo alimentado pelas imensas cachoeiras leitosas que
descem das gigantescas montanhas. Almoçamos em PHAKDING e após um chá,
seguimos confiantes com o lindo dia a nos inspirar. Vimos o encontro do rio
Tibete com o rio Everest. Águas sagradas que se fundem e nos ensinam que as
diferenças são imposições dos homens, que na natureza o padrão é a
interatividade e a predominância da harmonia sem exclusão. As águas se misturam
e seguem o contorno fácil do seu leito tornando o lugar um cenário de intocável
beleza.
Ao chegarmos
a Namche Bazar ficamos parados, antes de entrar no vilarejo, olhando o
encantamento do lugar. Namche está escondida entre dois cumes e no meio dos picos gigantes do Khumbu. As casas têm o
mesmo padrão arquitetônico e é de um colorido harmonioso e singelo que compõe um
cenário cuidadoso e acolhedor. O lugar tem boa estrutura e dispõe de lojas com
uma variedade enorme de produtos para montanhismo, farmácia, mercado, internet,
telefonia dentre outros serviços. Aqui ficaremos dois dias de aclimatação.
Nosso hotel Tibet. é aconchegante, organizado, bem estruturado e com um padrão
de higiene superior ao que tínhamos usufruído na pousada anterior. Fomos recepcionados com um chá de hortelã e
um saboroso almoço. Um bom lugar para passarmos dois dias e prepararmos nossa
aclimatação à altitude e evitarmos o mal de altitude. Namche está a 3450 MT de
altitude e é o abrigo e parada de quase todos os mochileiros que se aventuram
na inusitada caminhada rumo ás montanhas do Himalaia.
Andamos
pela cidade para conhecer um pequeno mosteiro que com um monge á porta nos
convida para tirarmos os sapatos, entrarmos e deixarmos um donativo se
quisermos. Um ambiente perfumado de incenso com coloridos desenhos a decorar o
interior com suas simbologias e mistérios. Depois da visita vamos ao museu da
região que retrata a cultura sherpa. O tempo fechou e não pudemos subir uma
trilha que nos daria a visão dos montes Ama Dablam, Nupste e Lhotse, mas, tudo
bem, tudo era lindo assim mesmo. Retomamos o passo para o hotel e por cem
Rupees tomamos um revigorante banho. Aqui percebemos que tudo tem os mesmo
ingredientes e os mesmos sabores. A comida se constitui em um prato individual
em que você escolhe arroz com legumes ou massas com legumes. E os legumes são
sempre os mesmos. Não recomendo comer carne, pois na região não se mata animais
e os que são consumidos vêem de Katmandu e, portanto, são carregados em lombos
de animais ou pessoas por quatro dias de viagem sem refrigeração.
CULTURA
SHERPA
Aqui vale
uma pausa para o aprendizado sobre a cultura sherpa, considerando sua
importância para a região e a força da identidade e da tradição que permitiu o
avanço das expedições e a conquista do topo das montanhas pelo conhecimento
adquirido e o seu senso de religiosidade que contribuiu para preservar o lugar.
Os sherpas são conhecidos em toda a região como um grupo étnico que vive nas
montanhas, mas que se miscigenou na capital e nos povoados mais baixos. Os
sherpas tiveram papel fundamental na conquista do Everest em função do físico
acostumado a baixas temperaturas e altas altitudes e a uma vida de trabalho
árduo em condições de extrema vulnerabilidade e limitados recursos. A
influencia na alimentação é muito significativa e eu sou grata pois, a comida
que mais me adaptei foi um quisado de lentilha com uma porção de arroz e
batata, chamada Dal Bha, típica da cultura sherpa.
TUDO É UMA
PREPARAÇÃO!
Voltando
para Namche Bazar, ficamos a descansar no gostoso ambiente do hotel que serve
de sala e também de restaurante a conversar sobre como tudo começou. Contei
para as meninas sobre minha experiência espiritual na Patagônia e que elas
estavam comigo e na época eu não as conhecia ainda o suficiente para
compartilhar algo tão especial para mim. Lembrei que eu cheguei ao abrigo na
patagônia Chilena e procurava por uma brasileira que havia conhecido em
Calafate e havia pedido a recepcionista que me colocasse no quarto com
brasileiros para estar com ela novamente, pois assim foi como combinamos.Mas
fui colocada erradamente com elas. Como não existe acaso sem propósito e não
podia saber disso naquele momento reclamei, mas nada adiantou e eu também
estava cansada para questionar, afinal só ficaria no abrigo de Torres Del Paine
uma vez. Assim, ao conhecê-las estava me sentido só e falei um pouco disso e
imediatamente Paula me convidou a seguir
com elas e depois eu retornaria para fazer a trilha da torre e completar o
circuito “W”. Era trabalhoso para mim, mas senti vontade em acompanhá-las. Paula
disse-me que se surpreendeu em me convidar para acompanhá-las tão rapidamente
ao que Ade concordou pois considera a Paula mais reservada. Disseram-me ainda que
eu havia sido importante para transmitir a força que elas precisavam e elas
supriram minha solidão momentânea. Esse foi o começo de nossos laços fraternos.
Ficamos amigas e ao final do circuito W estávamos unidas como amigas que se
reencontram e nossa despedida foi com pesar. Contei-lhes que na trilha havia
tido uma experiência espiritual muito forte e não tinha contado a elas na época
por não saber como absorveria isso e eu mesma precisava processar a vivencia
dentro de mim. Normalmente sou muito alegre na trilha e isso se traduz em
canções que vou cantarolando, preces que me vêem à mente e não sinto falta de
nada. Sinto-me completa em contato com a natureza. No entanto, um dia estava
amargurada, com pesar no coração. Tinha a sensação que algo muito ruim havia
acontecido com Nana e Malu. Perdi em muito a leveza que o contato com a
natureza proporciona e tudo eram sombras e sequer tinha vontade de conversar. Então,
de forma inesperada ouvi uma voz interna a falar: Quésia, quem cuida de tudo
sou eu. Elas não estão bem em função do seu cuidado, mas do meu! Eu sei e sabia
que Deus fala e ouve em nossas orações. Tinha convivido em um lar onde
experiência com Deus era compartilhada diariamente. Mas, eu estava ali, me
sentindo egoísta por deixar tudo para trás e viver o que queria e isso
culturalmente não é comum e pesou em mim sem que eu me desse conta. Olhei para
os lados e tudo estava bem e as meninas não demonstraram ter ouvido aquela voz
que se repetiu: Eu tenho o controle e as amo também! Traduzindo, sua
preocupação é inútil e desnecessária. Sou eu também quem cuido de você!
Imediatamente me veio á mente uma linda canção que ouvia na igreja dos meus
pais quando adolescente e era cantada por um amigo muito especial e que ainda
me encho de culpa pela forma pela qual nos afastamos, mas isso é outra
história. “Sei que a canção veio em rima, verso e melodia e comecei a cantar,
“...Não tenha sobre ti, um só cuidado qualquer que seja, pois um somente um
seria muito para ti. “É meu somente meu todo o trabalho e teu trabalho é
descansar em mim...” Minha emoção era tamanha que cantava agradecendo a Deus
por me mostrar a minha arrogância em achar que tenho o controle sobre qualquer
coisa. Estava costumada a zelar e a cuidar de todos à minha volta que achava
isso que me tornava potente para preservar alguém e livrá-la de algum perigo
apenas pelo fato de estar perto. Mas somos apenas instrumento que é usado no
momento da providencia de Deus e não detemos poderes nenhum. A paz irradiou meu
coração, mas ainda questionava se não era um mecanismo da minha cabeça para
suportar o desconforto da situação. Ao final da trilha, checando os emails das
meninas pude constatar que não. É preciso relatar este acontecimento aqui, pois
não ousaria ficar mais tempo ainda longe de casa sem superar essa limitação
internalizada que me impediria de viver ampla e intensamente as lições do
Everest.
Não
estávamos naquele continente, outra vez juntas, por acaso. Disso tínhamos
certeza!
Eu havia
programado minha viagem para Bolívia com ajuda de um amigo que esteve lá por meses
e amava o lugar. Estava com tudo pronto e bem planejado, só não contava com o
maior risco que eu não podia administrar: As fortes chuvas que tornavam as
trilhas extremamente perigosas. Fiquei frustrada demais, pois já me via na
Bolívia, no salar de Uyuni. Levei a maior bronca do Hugo que me disse “vc não
deve ficar assim. Você não tem idéia do que tem preparado para você no futuro”.
Menino profeta! Eu de fato não imaginava o que ganharia dali para frente. As
pessoas sempre tentam nos apoiar e falam palavras de animo, mas estava chata de
tanta frustração como uma mimada que não pode perder um brinquedinho e logo faz
birra. Mas, não tinha escolha e preenchi meus dias com muito trabalho.
Tempos
atrás, conversando com o Rubens sobre montanhismo falei algo sobre o Everest e
ele me disse que muitos montanhistas fazem a trilha até o acampamento base do
Everest e não era difícil assim como eu imaginava. Fiquei surpresa e ele me
encaminhou o relato do escritor e empresário Luciano Pires que havia feito a
trilha e intitulado o relato ”O meu Everest”. Li todo até de madrugada.
Lembro-me que meu coração palpitou. Mas,
não ousei sonhar ir tão longe, mas algo no fundo abriu-se para esta
possibilidade. Não me considero uma montanhista, apenas uma “caminhante que
perdeu o medo de errar e de caminhar”. Em fevereiro, no meu aniversário, minha
doce amiga Regiane me presenteia com o livro do próprio Luciano, “O meu
Everest”. Assim, ele se torna leitura repetida e obrigatória e meu pensamento a
desejar conhecer sargamatha é recorrente. Mas, quem sou eu??. Fuço a internet e
começo a ler tudo sobre a montanha mais desejada e comentada e alta do mundo.
Paralelo a minha história, Paula relata que havia recebido um email sobre uma
expedição ao acampamento base do Everest e disse que seu coração disparou ao
ler e retornou perguntando se aquilo era apenas para alpinistas e recebeu a
resposta que era para qualquer um que se interessa por treking e montanhas, mas era necessário
um bom preparo físico. Daí não teve mais sossego e comprou exatamente o livro:
O meu Everest! Convidou a Ade que topou na hora e lembraram-se de mim. Paula me
ligou e quando disse-lhe que estava lendo o livro e com o coração no Everest, ficamos
arrepiadas e começamos a planejar uma expedição para 2011. Ao conversarmos por
email nos desafiamos para realização da viagem em 2010. Todas responderam sim ao desafio.Sugeri outubro em função do
feriado e da temporada propicia na região. Paula ficou responsável pela
consulta das passagens e eu consultaria amigos, net, e faríamos um planejamento
a três. Ao consultar trechos, preços, vistos a data ficou melhor definida para
setembro, pelo Qatar , Emirados Árabe, pois não precisaríamos de vistos. Onde
fica os Emirados Árabe?? Precisava estudar melhor geografia e me acostumar com
a idéia de estar do outro lado do mundo em uma região nunca antes imaginado.
Sabia que me chamariam de doida e sabia também que apenas algumas pessoas
apoiariam minha decisão e sabia bem quem eram elas e recorreria quando sentisse
a necessidade de fortalecimento, apoio e amparo. Sutilmente pedi isso e senti a
confiança nas palavras, emoção e compartilhamento dos preparativos. Ainda sou
grata a eles. Não sabem a profundidade do carinho que nutro ao lembrar que
minha insegurança se dissolvia a medida que me perguntavam e me ajudavam a
delinear um sonho, simples para muitos e extremamente simbólico para mim.
Algum tempo
depois surge a proposta de viajar para os EUA a trabalho no mês de julho. O MJ
informa que a viagem seria realizada em setembro. Começa
a agonia. Frustrada novamente me desanimo e comunico com pesar as meninas que
existe a possibilidade de conflito de datas e havia deixado-as livres para viajar sem mim. Paula se mantém
firme e disse que não vê a viagem ao Everest sem mim. Iríamos juntas e sentia
isso o tempo todo. Minha falta de fé enevoava meus pensamentos e
minha esperança.
A falta de fé embota os olhos, agora posso afirmar isso. Uma semana antes da
data marcada, fui a Brasília e sou informada que a viagem aconteceria dois dias
depois do retorno ao Nepal. Não tenho dúvidas, “eu verei o meu Everest!!!”
Agora vejo a arquitetura divina, se nós tivéssemos comprado as passagens para o
mês de outubro eu não poderia ir, Se a viagem à Bolívia tivesse acontecido eu
também não poderia ir. Se eu não sonhasse, eu também não poderia ir. “E cá
estou eu a caminho da trilha que me ensina as palavras apostólicas sobre a fé:
Um fundamento das coisas que não se vê, mas se espera”.
Sim, tudo é
uma preparação e essa frase foi dita ainda na Patagônia quando as meninas não
imaginavam o quanto o circuito W era difícil para elas. Que bom que não sabiam,
assim puderam fazer.
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